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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

ETTORE SCOLA *10/05/1931 +19/01/2016


E eis que sai de cena Ettore Scola, aos 84 anos. Verdadeiro presente da cinematografia italiana para o mundo todo, o realizador conseguiu em sua vasta obra concretizar um olhar sobre a humanidade sempre caustico e bem-humorado, sincero e ingênuo, aguçado e porque não dizer, gentil. Sempre costurando momentos históricos com pendengas íntimas, Scola conseguiu incutir em obras como Feios, Sujos e Malvados , Nós Que Nos Amávamos Tanto,  Um Dia Muito Especial, O Baile, Splendor, Concorrência Desleal e tantas outras uma dose de humanismo e solidariedade que consolidou sua voz de artista pleno, o diferenciando de cineastas como Fellini, Antonioni e Monicelli.
Trabalhou com Mastroianni, Sophia Loren, Massimo Troisi, Monica Vitti, Jack Lemmon, Vittorio Gassman, Nino Manfredi, Stefania Sandrelli e uma infinidade de colaboradores.

Seu último filme data de 2013: Que Estranho Chamar-se Federico prestou homenagem à Fellini, um misto de ficção e documentário onde Scola compartilhou suas memórias sobre o mestre e mentor. Reconhecendo a influência que recebeu de Fellini, Scola exibia sua modéstia e pareceu até o fim esconder com humildade a grandiosidade de seu cinema, que influenciou tantos outros cineastas.  Foi brilhante do início ao fim, e toda sua filmografia merece revisão. Vai fazer falta, mas sua obra permanecerá.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

DAVID BOWIE (* 08/01/1947 + 10/01/2016)


Bowie sabia, meus amigos. Ele sabia tudo, absolutamente tudo. É algo indiscutível. Ele ensinou gerações inteiras a sonhar coisas que nem sabiam sonhar, ensinou toda a classe musical como deve ser feito, desde os anos 60 até anteontem, quando lançou seu réquiem, Blackstar, que agora assume outro significado completamente diferente.

Influenciou absolutamente todo mundo que eu e você tem como ídolo.

Portanto, ele é mais que ídolo.

Ele é elemento central na tabela periódica do cenário cultural dos últimos cinquenta anos. É natural para mim dizer que amo David Bowie porque é dele a primeira música que eu tirei na bateria, a primeira música em que eu entendi como era bom ficar bêbado com estilo, a influência que veio junto com os Rolling Stones. Ele estava nos meus filmes favoritos, musicou a vanguarda da Europa com sua trilogia de Berlin Low/Heroes/Lodger, recriou o funk/soul americano em Young Americans, inventou o rock teatral com seu Ziggy Stardust, foi Nikolai Tesla em O Grande Truque de Christopher Nolan. Isso para não deixar de mencionar Fome de Viver e O Homem que Caiu na Terra, indispensáveis. Suas canções foram irretocáveis. Uma delas me inspirou a dar o nome desse blog que você está lendo agora. 

Bowie, do início ao fim você foi o proto rebelde, o primeiro na fila da transgressão estilosa, ensinou a todos nós, ensinou tudo. Enquanto Rebel Rebel ecoa nas caixas de som do meu quarto, te agradeço por tudo, mesmo que você não saiba agora. Definitivamente, tempos bem piores virão em sua ausência. Ainda assim continuaremos caçando ilusões.

Adeus baby, e bons sonhos.

domingo, 10 de janeiro de 2016

OS 10 MELHORES FILMES DE 2015

10 - CREED (Dir. Ryan Coogler)



09 - QUE HORAS ELA VOLTA? (Dir. Anna Muylaert)



08 - O CLÃ (Dir. Pablo Trapero)



07 - MISTRESS AMERICA (Dir. Noah Baumbach)



06 - SICARIO (Dir. Dennis Villeneuve)



05 - THE WOLFPACK (Dir. Crystal Moselle)



04 - YOUTH (Dir. Paolo Sorrentino)



03 - O REGRESSO (Dir. Alejandro González Iñarritú)



02 - MAD MAX - ESTRADA DA FÚRIA (Dir. George Miller)



01 - OS OITO ODIADOS (Dir. Quentin Tarantino)


OS 10 MELHORES DISCOS DE 2015

10 - NEW ORDER, "Music Complete"



09 - TAME IMPALA, "Currents"



08 - THE DEAD WEATHER, "Dodge and Burn"



07 - CAGE THE ELEPHANT - "Tell me I'm Pretty"


06 - THE STRYPES, "Little Victories"



05 - ALABAMA SHAKES, "Sound and Color"



04 - KURT VILE, "B'lieve I'm Going Down"



03 - NOEL GALLAGHER'S HIGH FLYING BIRDS, "Chasing Yesterday"



2 - EAGLES OF DEATH METAL, "Zipper Down"



1- RYAN ADAMS, "Blue Light EP"/ "1989"/ "Live at The Carnegie Hall"




sábado, 9 de janeiro de 2016

OS OITO ODIADOS (THE HATEFUL EIGHT, EUA, 2015, 187 min. Dir. Quentin Tarantino)

Os Oito Odiados é mais uma fita de Quentin Tarantino destinada a ser discutida por cinéfilos do mundo todo durante muito tempo. Você pode odiar, amar, parar na metade, assistir várias vezes ou simplesmente desprezar. Certamente quem assistir até o final não será o mesmo. O filme faz você reagir, isso é um elogio.

Começa com um fiapo de trama muito bem contextualizada: o oficial de justiça John Ruth (Kurt Russell) vai levar a fugitiva Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) até Red Rock para enforcá-la e receber a recompensa. Passando pelo Wyoming no meio de uma forte nevasca, é obrigado a dar carona para o Major Marquis Warren (Samuel L.Jackson) e o novo xerife de Red Rock, o confederado Chris Mannix (Walton Goggins). Para fugir da nevasca, os quatro se refugiam numa estrebaria e restaurante à beira da estrada onde encontram mais quatro figuras peculiares: um veterano General de Guerra racista Sandy Smithers (Bruce Dern), um inglês nomeado o novo carrasco de Red Rock, Oswaldo Mobray (Tim Roth), o mexicano que cuida do local, Bob (Demian Bichir), e o pistoleiro Joe Gage (Michael Madsen). O contexto vem dessa gente toda carregar ressentimentos gravíssimos devido ao final da guerra da secessão, que dividiu os Estados Unidos. Prosseguindo com o tema já abordado em Django Livre, Tarantino faz desse encontro de párias numa cabana durante a tempestade de neve uma representação de cada nicho da América em sua construção. E as discórdias dessa mesma América surgem nas faíscas entre esses personagens, nenhum santo, vale a pena destacar. É o lugar onde o escravo vencedor vai à forra munido da outorga de Lincoln contra o branco racista; onde o colonizador inglês e o imigrante mexicano procuram seu espaço, onde a fugitiva e o homem da lei se digladiam, onde o xerife irascível e o caubói em busca de dinheiro fácil se encontram.

E nunca como em outro filme de Tarantino a violência fez tanto sentido. O rancor desse grupo de facínoras alcança uma apoteose de sangue muito simbólica. O inferno que estes personagens irão enfrentar é contraponto e ilustração perfeita do Jesus crucificado e coberto de neve na abertura do filme. Aqui não há espaço para trégua, misericórdia, perdão. Não há 'Noite Feliz' entoada no piano capaz de cessar décadas de escravagismo, violência e raiva contida. Ao ambientar essa hecatombe num ambiente claustrofóbico e de impossível escapada, o realizador nos faz pensar em sua estréia, o seminal Cães de Aluguel. A baixeza das relações e a sangueira desatada de fato fecha o ciclo com seu primeiro filme, mas também vêm à mente o retrato da miséria humana de O Tesouro de Sierra Madre, assim como a selvageria inusitada que irrompe em meio à nevasca vem em linha direta de O Enigma de Outro Mundo, aquele terror de John Carpenter onde em uma base no Alasca uma equipe de pesquisa era dizimada por um ser alienígena. A trilha de Ennio Morricone confirma essa tese, e coloca a paranóia e o sentimento de inadequação no cerne do filme. Mas a violência é o elo de união desses personagens, e o demônio que surge entre eles não é nada alienígena; vem mesmo é da mesquinharia humana. Assim como no já clássico Seven de David Fincher, a sugestão de Tarantino é que o humano destinado a rejeitar um acordo de paz está destinado a implodir, refém do mal que carrega dentro de si; a condenação final suprema da vida.

Falar sobre o brilhantismo técnico é chover no molhado, mas vale destacar que ele aposta muito mais alto que em Django Livre numa direção de atores dificílima, pois não orienta em quem o espectador deve se apoiar como bússola moral do filme. Ainda consegue de maneira soberba controlar a tensão num espaço fechado utilizando enquadramentos de câmera precisos e o poder de um texto afiado e potente para segurar o público. Consegue. É mais ambicioso e difícil que suas fitas anteriores, pois aqui, ao contrário da maioria de suas obras, existe um subtexto denso e pretensioso percorrendo todo o texto. É tudo muito carregado de significado histórico, e não há maior sinalizador disso do que a tal carta escrita por Lincoln em posse do Major Marquis. É como se existisse pairando sobre essa dança da morte macabra pelos detestáveis do título uma espécie de espírito da América, sugerindo de maneira invisível aquilo que pode ou não ser feito, o que é ou não ofensa à fundação do país. Ao final, sem dar spoilers, o que fica com o espectador é uma jornada ao coração negro e enlameado de uma nação que nunca acertou suas contas mais extremas, suas pendências mais absurdas. E se no cerne desses desacordos é onde nasce a violência, é lá que o autor está, nos presenteando com mais um épico sobre a natureza humana em suas mais sombrias vertentes, na encruzilhada do sadismo e o prazer culpado.

Sergio Leone, Sam Peckinpah, John Ford, Howard Hawks, John Carpenter, Sergio Corbucci e tantos outros foram os cineastas cujos nomes me vieram à mente durante a exibição de Os Oito Odiosos. Em quase três horas de filme Tarantino honra o legado de cada um deles e afirma o seu próprio. Seu relato de uma América em impasse é legítimo e me deixou emudecido ao final. Me perguntei sobre a validade de um filme desse quilate nos dias de hoje, se vai ter gente pensando e discutindo com paixão tudo o que foi mostrado pelo autor. Gosto de pensar que sim. Mas é uma jornada tortuosa; muitos podem ficar pelo caminho.  

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

RETROSPECTIVA TARANTINO: DJANGO LIVRE (DJANGO UNCHAINED, EUA, 2012, 165 min. Dir. Quentin Tarantino)

Hoje, três anos após o lançamento de Django Livre, seu sucesso de crítica e público o transformou na obra mais conhecida de Tarantino, aquele no qual o cineasta alcançou uma platéia enorme e diversificada. O gênero faroeste, o uso de atores muito populares e uma narrativa mais afinada com as regras clássicas confirma Django Livre no cânone de Tarantino como seu grande filme comercial, a volta da vitória após Bastardos Inglórios. É cinema imensamente satisfatório e cheio de momentos dignos de menção. Quando de seu lançamento no Brasil em janeiro de 2013, destaquei alguns fatores que me chamaram atenção e ainda conseguem. Volto a publicá-los agora:

        *Christoph Waltz: O sensacional ator austríaco emplaca outro tipo único na galeria tarantiniana e se confirma como mais um talismã do diretor, nos moldes de Sam Jackson em Pulp Fiction e Jackie Brown e Uma Thurman em Pulp e Kill Bill. Na pele do caçador de recompensas e dentista-caixeiro viajante King Schultz, Waltz rouba cada cena em que aparece e declama os diálogos de Tarantino com a voracidade que Branagh faria Shakespeare. Ainda sofrendo a comparação com o inesquecível Coronel Landa de Bastardos Inglórios, ele ignora esse fato e praticamente obriga cada parceiro em cena ( Jamie Foxx, Kerry Washington, Leo DiCaprio, Sam Jackson, todos ótimos) a elevar o nível de atuação em cada sequência em que ele está. Ele é o coração de Django Livre, e sua química com Jamie Foxx é o fator que ganha a simpatia da audiência durante o filme.

*Roteiro Linear: Pela primeira vez em sua obra, Tarantino conta sua história de maneira linear e portanto climática. Respeitando os cânones do cinema de western, ele vai construindo uma história de vingança que lentamente vai acelerando até chegar num clímax monumental, talvez o maior tiroteio da história do cinema desde The Killer (John Woo, 1989). Enquanto caminha até o ápice do filme, a paciência do espectador é sempre recompensada por sequências de suspense eficientes e diálogos afiados. Confirma-se aqui que na sua revisão dos gêneros cinematográficos, a grande proposta de sua obra, Tarantino sabe o que deve subverter e o que deve manter intacto: agora não é hora de avanços e deslocamentos temporais, de loucuras no roteiro. Django Livre é um spaghetti western clássico, contado de maneira clássica, mas com toda a subversão de conteúdo que caracteriza a obra do cineasta.

*Violência absurda, bem utilizada e estilizada: Ao narrar a história de um escravo recém libertado por um caçador de recompensas e que juntos vão atrás de uma mulher refém do maléfico proprietário de terras, o realizador ambienta sua obra na América pré-Guerra Civil, o Texas no auge do racismo, da escravidão. Talvez a época mais violenta daquele país; um momento na história que a consciência coletiva faz questão de esquecer até hoje. Tarantino mexe nesse vespeiro com sua finesse habitual: testemunhamos de camarote o show de horrores perpetrados contra os negros de maneira explícita, gráfica. Um ataque de cães, uma cela solitária chamada 'hot box', o açoitamento, a castração, lutas de mandingos...nada escapa ao olhar punitivo de Tarantino. É como se ele jogasse de volta na cara da América todo o horror e violência brutal com seu gosto habitual pelo humor negro, mas aqui não: o sentimento que brota da violência infligida contra o ser humano em Django... só causa asco e alimenta a torcida para a virada do escravo caçador de recompensas no final. Pela primeira vez, Tarantino usa a violência com uma justificativa muito nobre: manipular o público e dissecar o show de horror que foi a escravidão na América. Já a violência estilizada dos inúmeros tiroteios tem uma raíz mais cinematográfica: o sangue que espirra com intensidade maior até do que em Kill Bill vem em linha direta de Peckinpah em The Wild Bunch, Scarface de De Palma e principalmente John Woo em The Killer. Ao mesmo tempo em que reconhece a intensidade histórica e a seriedade do contexto, Tarantino sempre nos lembra seu mantra primordial: o cinema vence, sem concessões.

*Uso épico da trilha sonora: assim como em seus filmes anteriores, o diretor faz uso magistral das canções da trilha sonora para criar momentos únicos. Aqui não é exceção. Tarantino é o diretor moderno que melhor entende e faz uso da música em filmes. A diferença é que com o tempo ele está sabendo dosar melhor ainda quando e onde inserir música e ampliar o impacto emocional das cenas. Assim como um Scorsese nos seus melhores momentos, Tarantino não cria clipes dentro do seu filme: ele torna as cenas épicas ainda mais intensas através da substituição da palavra pela canção, e assim, junto com a edição certeira, consegue tornar memoráveis sequências que nas mãos de outros diretores seriam apenas transição ou montagens dentro do filme. Ele sabe que música aliada a imagem é a forma mais potente de cinema, lição aprendida com Sergio Leone. Bingo.

*Um criador já autoconsciente do seu estilo: Cinéfilo atento, pode reparar: após Kill Bill, ficou claro que Quentin Tarantino vislumbrou e assimilou um estilo próprio de direção. Em outras palavras, desde então o homem está apaixonado pela sua habilidade de artesão e criador de regras em seu próprio 'tarantinoverso'. Em Pulp Fiction e Cães de Aluguel ele burilou uma forma de cinema que ele mesmo não reconhecia, pelo frescor da realização e pela juventude. Em Jackie Brown ele estranhou um pouco e pareceu indeciso sobre qual direção seguir, e o resultado foi mais uma meditação sobre cinema policial do que um filme policial em si. Mas de Kill Bill em diante, tomou as rédeas do seu estilo de direção e consistentemente, filme após filme, reafirma sua simbologia própria e recria situações citando outras já suas. O tema da vingança e suas variações permeia sua obra desde Kill Bill, mas os desenlaces sempre são inesperados e diferentes. Ao mesmo tempo, já é consciente da familiaridade do público com sua obra e usa esse conhecimento para subverter e perverter as criações vindouras. Se no início de carreira tudo remetia a outros filmes e outras simbologias da cultura pop, agora Tarantino sabe que já é parte dessa cultura e pode reconstruir signos e símbolos usando sua própria obra como ponto de partida. Nesse sentido, o Django de Jamie Foxx se une à 'Noiva' Beatrix Kiddo, e ao Tenente Aldo Raine, numa linhagem de personagens de gênero: seja Western, Kung-Fu ou Guerra, todos são filhos legítimos das resoluções cinematográficas de Tarantino.

*Cinema ainda importa: Toda vez que Quentin Tarantino vai para trás das câmeras, ele parece nos lembrar a festa que é ir ver filmes, a alegria pura de se fazer cinema. Esse é um realizador que nasceu no berço do cinema popular, os cinemas de rua, drive-ins e as videolocadoras, os intermináveis 'corujões' da vida, onde pôde presenciar todo tipo de cinema sem distinção e cultivar o melhor e o pior da sétima arte sem preconceito algum. Cada filme seu é um ritual de celebração do poder do cinema, do fato que seja em um dvd ou bluray, mas principalmente numa sala de cinema, ainda é 'o' filme o responsável pela formação de novos cinéfilos, neófitos interessados ou simplesmente apreciadores fiéis de uma sala escura com uma tela enorme, som potente, e uma boa história sendo contada. Django Livre é mais uma tradução em celulóide  dessa linha de raciocínio, e é por esse amor ao cinema que Tarantino deve ser venerado. Ele sabe que isso aqui é muito mais que business, uma coisa de sangue mesmo. O último 'believer' do cinema americano, um verdadeiro herói da resistência. Um artista comprometido com sua arte, genial e irresponsável, como deve ser.


Finalizando essa retrospectiva, a conclusão é que minha fascinação de cinéfilo pela obra de Tarantino é de simples compreensão: ele faz filmes populares, que congraçam ao mesmo tempo em que dividem, portanto geram discussão. Ao mesmo tempo consegue ser autoral e sempre ter a sorte de trabalhar com astros populares, o que ajuda na conquista do público neófito. E agora já entra em fase de colocar sua 'marca' dentro de gêneros, assim como Kubrick fez nos anos 80 com O Iluminado, Full Metal Jacket e seu último filme, De Olhos Bem Fechados. Ele já encontrou um viés seu para contar qualquer tipo de história, e isso é raro, raríssimo de se ver. Só espero que o público continue abraçando as ousadias dele e não o tenha como um sabor do momento, ou um simples transgressor. Tarantino é um dos grandes diretores americanos de todos os tempos, e filme à filme ele luta com garra por esse título. Se realmente confirmar sua profecia de encerrar uma obra fechada de dez filmes, vai entrar para a história pelo controle de sua produção, por sua integridade. Não consigo lembrar de outro diretor com esse fôlego para com a própria obra e para surpreender o público médio de cinema. Que continue assim, até que outro moleque apaixonado por cinema tome respeitosamente (ou não) o seu lugar. E agora, já conjecturando idéias para o texto sobre seu novo míssil cinematográfico que vi ontem, Os Oito Odiados, fico pensando, um pouco triste, que se faltam realmente apenas dois filmes para o homem se retirar, vai ser um inverno longo e frio. Mas como tudo na vida, se deve ter um final digno de nota, que o faça gloriosamente em grande estilo.    

RETROSPECTIVA TARANTINO: BASTARDOS INGLÓRIOS (INGLOURIOUS BASTERDS, EUA/ALE, 2009, 153 min., Dir. Quentin Tarantino)

 Pulp Fiction foi marco definitivo dos anos 90 e consolidou Quentin Tarantino definitivamente como voz sólida e relevante no meio cinematográfico. Mas após Kill Bill e À Prova de Morte, ficou claro o desejo do autor de abandonar determinados guetos alternativos e confirmar seu talento com uma obra definitiva. Que o colocasse no panteão dos grandes mestres de todos os tempos. 

E que prazer confirmar "Bastardos Inglórios" em forma e conteúdo como a melhor obra de Quentin Tarantino, um diamante cinematográfico raro que será lembrado por décadas como o responsável por uma revolução nos filmes de guerra e mais, o filme que deu ao autor o status de cineasta internacionalmente aclamado por público e crítica.

Narrando em capítulos a história de um grupo de aliados infiltrados na França ocupada pelos nazistas para liquidar Hitler e seus asseclas, Tarantino consegue eliminar todas as armadilhas de filmes do gênero e entrega uma obra enxuta, em que cada diálogo, cada momento registrado move a trama rumo à um clímax perfeito, sem arestas.

Contou com um grupo multicultural de atores e soube dirigi-los um a um, baita desafio numa obra em que ao menos quatro línguas são faladas fluentemente por todo o elenco. A revelação maior para o público do mundo todo, inquestionavelmente, é Christoph Waltz, ator veterano da TV alemã interpretando o Coronel Landa, 'O Caçador de Judeus': um personagem sorrateiro e enigmático que entra direto na galeria dos melhores personagens já saídos da mente de Tarantino. Ainda a belíssima francesa Mélanie Laurent faz lembrar a saudosa Nastassja Kinski (inclusive com uma citação à Sangue de Pantera de Paul Schrader no uso da canção de David Bowie e Giorgio Moroder 'Cat People (Putting Out The Fire)' em sequência brilhante) e brilha no papel de Shosanna Dreyfus, uma sobrevivente judaica do massacre perpetrado por Landa na estupenda abertura do filme. Vale destacar também o astro de Adeus, Lênin, Daniel Brühl, em ótimo desempenho como o matador implacável que se apaixona por Shosanna, Frederick Zöller. O resto do elenco composto por Brad Pitt, Michael Fassbender, Til Schweiger, Diane Krueger, são todos uniformemente bem dirigidos sob a batuta de Tarantino.  

O grande trunfo de Bastardos Inglórios é notar como Tarantino consegue colocar seu apreço pelo cinema sempre no centro dos acontecimentos. Trancar Hitler e sua escória dentro de um cinema e por uma noite imaginar a sétima arte como vingadora de todos os problemas do mundo é uma metáfora potente, jamais utilizada em um filme do gênero. Ao contrário da seriedade de, por exemplo, um O Resgate do Soldado Ryan, o autor abandona qualquer fidelidade ou moralismo aliado ao acontecimento histórico e propõe uma fantasia de libertação, de catarse dos sentimentos. Isso com certeza polarizou o público, mas qualquer pessoa com o mínimo de interesse e amor por cinema sabe a operação ousada que Tarantino está fazendo, e é impossível resistir á tamanha genialidade. É um filme que fala sobre guerra, mas acima de tudo, fala sobre filmes de guerra.

Mas um filme de Tarantino resiste à categorização. Este filme é sobre tudo isso mas ao mesmo tempo seu coração existe num senso de humanidade que dialoga diretamente com quem assiste o filme. Sua 'voz' conversa com o espectador de uma maneira inusitada, como que desafiando todas as nossas pré-concepções. Você sabe que muito mostrado na tela jamais aconteceu, mas o senso de diversão e de prazer que emana das cenas chega a ser quase proibitivo de tão bom. Os atores de Tarantino devoram o texto, eles jantam cada palavra, com gusto e bravura. Ele sabe que o segredo da performance icônica é levá-la ao limite do exagero, e daí dar um passo para trás. O Coronel Landa é a prova disso: revendo o filme fica claro que ele é o ícone que define a obra. Seu tom é perigoso e brincalhão, perspicaz e gazeteiro. O filme também se situa nessas travessas.

  Quando vi Bastardos Inglórios em sua estréia, num cinema lotado em Ribeirão Preto, paguei o ingresso e entrei imediatamente na próxima sessão. No dia seguinte, fui mais uma vez. Daí entrei direto numa loja de DVDs e comprei Cidadão Kane, considerado o maior filme já feito. De alguma forma o filme de Tarantino reacendeu meu amor pelos filmes do passado e deu à minha geração um filme clássico no presente que poderemos para sempre relembrar. Depois vi Bastardos mais seis vezes em diferentes salas pelo estado de São Paulo, e o mais incrível era ver a reação das pessoas em diferentes momentos do filme. O mais lindo é que o público  de fato se envolve e REAGE ao que acontece em cena, nunca terminando o filme ileso ou indiferente. Eu fiquei emocionado e sabia que tinha presenciado algo especial, mas não consegui classificar o filme numa opinião fechada, estreita. Eu mal pude anotar a placa do caminhão que tinha me atropelado. Como manda a regra do Grande Cinema, os filmes vão te envolvendo conforme você os revê. Eles crescem no seu conceito e vão te consumindo até que você não para mais de pensar sobre eles, sobre tudo que viu. E nunca basta assistir uma vez só.

E isso, meus amigos, é o que costumamos chamar de OBRA-PRIMA.  

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

RETROSPECTIVA TARANTINO: À PROVA DE MORTE (DEATH PROOF, EUA, 2007, 113min. Dir.Quentin Tarantino)

Citação de Quentin Tarantino para a revista norte-americana Vulture, em agosto de 2015:

"Aprendi uma grande lição após Grindhouse, e desde então tento não cometer o mesmo erro. Robert Rodriguez  e eu estávamos acostumados a seguir nossos próprios caminhos desde sempre, em estradas esquisitas e interessantes, e daí o público sempre nos acompanhava. Logo, pensávamos que o público iria conosco onde quer que nós fôssemos. E Grindhouse provou que essa teoria estava errada . Ainda assim foi uma ótima experiência, mas teria sido melhor se não tivéssemos sido pegos tão de surpresa pelo desinteresse do público". 

Grindhouse foi o tributo de Tarantino e Rodriguez ao cinema B dos anos 70, consistindo numa sessão dupla de quase quatro horas. Rodriguez fez a fita de zumbis inspirada por George Romero e John Carpenter Planeta Terror, enquanto Tarantino na segunda metade exibia seu À Prova de Morte, um tributo à filmes de horror e perseguição automobilística dos anos 70 como Corrida Contra o Destino e suspenses como os de Brian De Palma, Dario Argento e também John Carpenter, visivelmente Halloween e Christine, o Carro Assassino.

Mas quis o destino que Grindhouse fosse um enorme fracasso nos Estados Unidos em sua estréia. E com as barbas de molho, Tarantino e Rodriguez trataram de separar seus filmes e os lançaram no resto do mundo como longas individuais. Uma pena, porque a experiência dos dois filmes vistos juntos é a coisa mais próxima de uma sessão maldita que Hollywood jamais ousou chegar perto em muito tempo. Mas sabendo da fraca recepção da audiência norte-americana, tratava-se de uma questão de sobrevivência dos filmes para uma platéia mundial. Sendo assim, À Prova de Morte, avaliado sozinho e tão somente por seus valores fílmicos adquire uma outra luz, muito mais interessante, dentro da obra do diretor.      

Utilizando um fiapo de história, no caso a obsessão e os procedimentos de um dublê maníaco (Stuntmen Mike, interpretado com garra pelo icônico Kurt Russell) que persegue e mata mulheres usando seu carro 'à prova de morte', Tarantino revisita toda uma tradição de filmes baratos e atores mais baratos ainda devolvendo ao gênero, criadores e intérpretes uma dignidade insuspeita, exatamente aos moldes do que fez em Cães de  Aluguel e Django Livre. Devolvendo a relevância ao western, ao filme de assalto e aqui ao thriller de horror, o criador exercita mais uma vez sua manobra favorita: reposiciona o cinema popular no berço da classe trabalhadora, eliminando quaisquer traços de elitismo ou pretensão no seu retrato sem preconceitos daquilo que o entretenimento pode ser.

Então fica claro que À Prova de Morte é o seu filme da sessão maldita de sábado à noite, para ser visto pelo espectador de preferência levemente bêbado e totalmente munido da tão famosa 'suspensão da descrença', pois tudo que é mostrado em tela não passa de um cineasta no completo comando de seu ofício e manipulando uma dezena de fetiches que compõem uma fita ousada em forma e temática. O diálogo das garotas que serão vítimas do maníaco nunca é menos que espetacular, justamente por ser tão próximo àquilo que com certeza Tarantino ouviu em milhares de conversas com jovens garotas. Elas falam com aquele ritmo, com aquela cadência, e é absolutamente crível e interessante ver essas mulheres conversando trivialidades, até o choque do momento em que o assassino entra em cena para subverter esse universo.

E a idéia da tranquilidade malemolente feminina atacada por um mundo machista e brutal se faz clara na metáfora que cruza o filme, a de um homem cru e perverso que frequentemente tenta penetrar em um universo estranho à ele na base da violência. E claro, repelido pela esperteza e traquejo de mulheres quase sempre muito mais inteligentes e sagazes que o próprio. A conclusão do filme e sua estrutura inusitada, em duas metades muito definidas, ajudam à corroborar a tese de que despretensiosamente Tarantino fez desse pequeno filme um comentário muito pertinente sobre os caminhos e descaminhos do machismo e feminismo, sem qualquer tipo de moralismo ou julgamento apressado. 

Tecnicamente a obra é um triunfo de enquadramentos deliciosamente imperfeitos, canções que comentam e melhoram cenas, e grandiosas sequências de ação que parecem sair em linha direta de um filme perdido dos anos 70. A perseguição que ocupa quase toda a segunda metade do filme é exemplar da liberdade de Tarantino em encenar com maestria algo que deve mais à Bullitt e Corrida Contra o Destino do que Velozes e Furiosos. 

À Prova de Morte é um dos grandes filmes de sessão maldita já feitos; se sua estética garante o prazer cinéfilo, sua aparente despretensão esconde um filme meticuloso. Numa apoteose de sangue e a sugestão iminente de sexo, carros velozes, carros destruídos e sonhos de sábado á noite não concretizados, Tarantino consegue dizer uma coisa ou duas sobre o estado dos relacionamentos humanos, sobre nosso desejo das coisas que nunca poderemos alcançar. Uma estrada percorrida com frequência, mas infinita. Um filme para revisão, sempre.      

sábado, 26 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA TARANTINO: KILL BILL VOL.2 (EUA, 2004, 137min. Dir. Quentin Tarantino)

Direto e reto: Kill Bill Vol.2  é provavelmente o filme usado por Quentin Tarantino para exorcizar um romance em que ele magoou muito a garota, e depois ela o procurou e partiu seu coração em pedaços.

Não há outra forma de descrever essa sequência direta da primeira parte em que o diretor muda completamente o tom do filme e o transforma numa mistura de road movie com western spaghetti e um gigantesco filme de arte amalucado sobre discussão de relacionamento. No meio disso, lutadoras caolhas, uma mulher enterrada viva, a teoria definitiva sobre a validade do Superman, um matador perigosíssimo contratado para desentupir privadas e um dono de bordel perguntando se existe um orifício anal em seu cotovelo. Decididamente, um filme de Tarantino.

Sim, esse é o filme em que Uma Thurman é enterrada viva, o filme em que a mesma luta com Daryl Hannah e parece uma cena do Jackass; mas para mim sempre vai ser o filme da melancolia de Tarantino, porque cá entre nós, um cara que filma uma cena daquela em que vemos um puteiro vazio as cinco e meia da manhã, o cara tem que ser muito cruel pra fazer aquilo, porque de certa forma ele sabe o que significa, ele sabe da badtrip que é, e ele curte isso, ele curte ambientar suas histórias em um universo desse tipo. 

E essa melancolia perpassa todo o filme, pela razão mais óbvia possível: é um filme de reencontro, de separação, um filme daquilo que poderia ter sido e não foi. Juro pra você que está lendo, o cara que muda totalmente de um filme insano de kung-fu para isso, ele merece um prêmio, uma placa. Porque reencontrar a pessoa que te quis tão bem e tão mal ao mesmo tempo não é tarefa fácil, e o cineasta sabe disso. Ele desacelera o passo e dá vazão às emoções reprimidas de Bill e Beatrix Kiddo, a Noiva.

Tarantino recheia o filme com mais uma centena de baboseiras incríveis e impressionantes, mas o que importa mesmo é a hora final em que a garota e seu ex batem um papo daqueles que vão entrar para a história do cinema, ou ao menos para a história do MEU cinema, e isso já basta. No fim das contas, essa história mortal de dois assassinos perigosíssimos escondia apenas um casal que se amava e se perdeu. Ambos eram ciumentos e por um descaminho desses da vida impossível de controlar, cada um queria uma coisa diferente do outro.E não houve meio de fazer duas visões coexistirem num relacionamento. 

E daí ele agrediu ela porque ele a amava muito (e claro é um psicopata amoral, como todos são em Tarantino) , e ela ficou à beira da morte. E num lapso de vida digno dos filmes, ela volta dos semi-mortos e o reencontra. E mesmo que ela o ame, há um preço a ser cobrado por todo esse desgaste, essa desilusão. E seria inútil Bill pensar que sairia ileso. Não há mal algum infligido à pessoa amada que passe impune, e ele sabe disso. Quando a noiva chega até ele e o encontra junto com a filha, o fruto do amor do casal, ele já sabe de antemão que não há escapatória.

Essa inevitabilidade do coração partido guia esse meio-filme fascinante de Tarantino, uma dança das cadeiras marcada, em que cada parte sabe seu papel e o cumpre até o final, triunfante e algo triste. Se Kill Bill Vol.2  desapontou muitas pessoas por não ser uma sequência direta em tom e estilo da primeira parte, ele confirma o cineasta como um rebelde totalmente consciente de sua posição marginal em Hollywood ou mesmo no mundo. Este é um filme romântico e decididamente honesto em seu retrato do amor perdido, e aquela cena em que ela parte o coração dele em pedaços, aquilo é a coisa mais amadora e sincera, mais pura e honesta em muitos anos de cinema. Nenhum cineasta teria a coragem de ser tão aberto e vulnerável,e Tarantino fez isso. Eu percebo que Kill Bill Vol.2  não é um filme que recebeu o reconhecimento que deveria, pois seu retrato do relacionamento amoroso é tão honesto quanto um Woody Allen, e não é porque ele envolve assassinos e morticínios que ele deveria ser ignorado pela crítica dita 'séria'. É uma obra original como poucas, e retrata as idiossincrasias de um casal de assassinos que se amavam e se separaram nas piores circunstâncias possíveis. Se não viu, corra e faça isso agora, Se já viu, assista novamente e pense nisso.  

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA TARANTINO: KILL BILL VOL.1 (EUA, 2003, 111min., Dir. Quentin Tarantino)

Entre 1998 e 2003 Quentin Tarantino passaria quase seis anos sem filmar, praticamente anônimo, enquanto toda a paisagem cinematográfica era remodelada por uma nova geração de diretores visionários. Numa tacada só Matrix, dirigido pelos Irmãos Wachowski, redefiniu a imagética do cinema de ação, assim como a confirmação dos talentos de Paul Thomas Anderson, Sam Mendes, Spike Jonze, David Fincher, Darren Aronofsky, Alejandro González Iñárritu e Wes Anderson em longas criativos e ousados marcaram o cinema popular na virada dos anos 2000.

É fácil imaginar Kill Bill como um projeto de introdução das maluquices e obsessões de Tarantino para uma nova geração que surgia. Após a recepção algo fria de Jackie Brown no final dos anos 90, o autor adentraria os 2000, uma década que valorizava o 'eu' como alegoria central do seu zeitgeist. Logo decidiu de uma vez por todas afirmar sua estrela de criador solitário num universo particular com uma saga de vingança, o ato supremo do ego, numa embalagem mais egocênctrica ainda que viria por revelar suas maiores qualidades e fraquezas. O filme foi anunciado como uma saga épica de artes marciais que teria mais de três horas e portanto, seguindo uma moda bastante em voga na época, seria dividida em duas partes. Assim como no mesmo ano Matrix Reloaded seria seguido por Matrix Revolutions, Kill Bill Vol.1 foi lançado em outubro de 2003 nos Estados Unidos e sua segunda parte, Kill Bill Vol.2, foi lançado em abril de 2004.

O lançamento oficial da primeira parte de Kill Bill no Brasil aconteceria apenas em 23 de Abril de 2004, depois do lançamento da segunda parte no exterior. À essa altura, a internet já caminhava a passos largos e via sites como o Rotten Tomatoes e muitos outros especializados em cinema confirmando o sucesso de público e crítica do filme. Uma cópia do dvd estadunidense já circulava os sites de compartilhamento e um amigo que não vou citar o nome por razões puramente comerciais assistiu, e passou para mim em VHS o filme em toda sua glória, legendado por grupos de aficionados que desde então só fizeram aumentar e hoje comandam esse serviço de maneira muito mais competente que as próprias distribuidoras. Eu trabalhava em uma videolocadora e lembro claramente do dia em que a fita caiu em minhas mãos. Assisti o filme umas dez vezes em uma semana facilmente. Logo tratei de mostrar para todos os meus amigos, e até o dono da locadora onde eu trabalhava quis saber do que falávamos tanto. Em menos de um mês aquela fita já tinha rodado tanto e tanto que parecia desgastada. Mas até o lançamento nacional em cinemas, eu voltei á ela ainda algumas vezes. E depois vi mais vezes no cinema. E mais vezes em dvd. E em blu-ray. E segue assim até hoje, quando ainda neste ano o filme foi exibido em mostra especial numa sessão de filmes alternativos aqui na cidade onde moro. O ciclo se fechou.

Todo esse papo para dizer que Kill Bill é um filme estupendo, um pequeno milagre do cinema onde um artista pega uma linha de argumento (no caso, 'divórcio entre casal de assassinos vai mal e mulher busca vingança contra seu mandante') e o transforma em uma ode aos filmes de kung-fu, westerns spaghettis, filmes de arte, filmes de horror, Brian De Palma, Bruce Lee, François Truffaut, Animes, Sonny Chiba, Godzilla, Robert Rodriguez, Gordon Liu e a velha guarda do cinema de Hong Kong, Rockabilly oriental, thrillers suecos, histórias em quadrinhos, filmes noir, a banda esquecida dos anos 60 The Human Beinz e juro, a lista é tão grande que eu passaria parágrafos descrevendo tudo que é referenciado em tela e ainda assim eu perderia alguma coisa. Os dois pólos de tensão do filme, 'A Noiva', personagem defendida com garra por Uma Thurman, e Bill, o chefe de uma gangue de assassinos encarnado na atuação derradeira do saudoso David Carradine, carregam o filme de maneira elegante e precisa. Thurman realiza o verdadeiro tour de force  dessa primeira parte, suando, sangrado e entregando diálogos incríveis aqui e ali. Carradine está presente no filme como o objeto de vingança da personagem, mas fisicamente ausente. Tarantino sabiamente inverteu a ordem lógica desse tipo de filme e entregou toda a catarse nesse capítulo inicial, para depois aprofundar as razões e motivações dos personagens. É uma tacada de mestre jamais foi copiada até hoje.

E se você assistiu Kill Bill Vol.1, sabe que a segunda metade do filme, mais ou menos depois que A Noiva parte para o Japão encontrar uma de suas algozes, a mafiosa O-Ren Ishii, vira praticamente um filme musical. São mais de quarenta minutos onde Tarantino coloca toda sua habilidade de cineasta no topo, uma antologia de cenas de ação tão bem filmadas que até hoje não encontra similares nem mesmo no cinema asiático. O ritmo é perfeito, a trilha sonora é espetacularmente bem escolhida e o filme termina num gancho incontornável, já prenunciando uma segunda parte com clima completamente diferente.

Daqui em diante o diretor colocaria suas paixões em primeiro lugar e isso resultou num cinema muito mais ligado às suas raízes de apreciador dos filmes B que devorou em sessões duplas e nos seus dias de rato de locadora. Mas isso é superfície. Todo o sangue e estilização que jorram de Kill Bill Vol.1  são novamente a embalagem que Tarantino utilizou para narrar seu pequeno filme sobre divórcio, um divórcio que acontece dentro de seu mundo de cinema; colorido, sangrento, impiedoso. Construído sob bravatas e discursos épicos de ética e vingança, nunca decepcionando o cinéfilo que ousar abandonar suas idéias pré-concebidas sobre cinema no início da exibição. Kill Bill  foi a encruzilhada onde Quentin Tarantino colidiu cinema popular e erudito, confundiu críticos e seduziu um novo público. E principalmente reinventou sua carreira, deixando de ser apenas um sabor dos anos 90 para se afirmar como um dos cineastas mais influentes de sua geração.   
        

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA TARANTINO: JACKIE BROWN (EUA, 1997, 154min. Dir. Quentin Tarantino)

Mais de dois anos após o sucesso sem precedentes de Pulp Fiction, a expectativa de todo cinéfilo no mundo pairava sob a seguinte questão: Teria Quentin Tarantino mais algum coelho na cartola após sua estréia com um dos pares de filmes mais contundentes de todos os tempos?

A resposta é Jackie Brown, um filme dirigido com mão de veterano, de ritmo próprio nada dependente dos seus filmes anteriores. O diretor sabiamente optou por adaptar o romance Ponche de Rum, de Elmore Leonard. Se você conhece alguma de suas obras, sabe que o estilo literário de Leonard se encaixa como uma luva e funciona até como influência sobre o estilo detalhado, verborrágico e imprevisível de Tarantino.

Jackie Brown (vivida pela musa da blaxploitation Pam Grier) é uma aeromoça que trabalha para uma empresa aérea de quinta categoria em Los Angeles. Incrementa seu faturamento lavando dinheiro de drogas do traficante Ordell Robbie (Samuel L.Jackson em grande momento). Em uma dessas operações, é flagrada e indiciada pelos oficiais Ray Nicolet (Michael Keaton) e Mark Dargus (Michael Bowen), que a obrigam a colaborar com o FBI em troca da diminuição de sua pena. Jackie vai usar de sua destreza e conhecimento das ruas para enganar Ordell, os agentes do FBI e ainda angariar algum dinheiro de todo esse imbróglio. Vai contar com a ajuda de seu agente da condicional, Max Cherry (O excelente Robert Forster, de O Pecado de Todos Nós com Marlon Brando). Ainda completam o elenco Robert DeNiro como o ladrão de bancos recém-saído da prisão e parceiro de Ordell, Louis Gara, e Bridget Fonda como Melanie Halston, uma garota de praia que passa os dias fumando maconha num bong e sendo uma das concubinas de Ordell.

O grande barato de Jackie Brown são as pequenas observações inseridas por Tarantino aqui e ali sobre a vida cotidiana. É seu único filme que não se passa numa espécie de 'Tarantinoverso', e isso confere uma naturalidade inusitada tanto na abordagem das locações, todas no sul de Los Angeles em locais frequentados por Tarantino, quanto no modo como os personagens interagem. É quase como se a trama policial ficasse em segundo plano e por alguns momentos nós tivéssemos um passe livre para entrar na vida dessas pessoas, de maneira relaxada e realista. Tudo é absolutamente crível, e nunca mais Tarantino se interessou por um retrato tão naturalista da vida em seus filmes. Creio que esse filme encerra uma 'Trilogia de Los Angeles', iniciada com Cães de Aluguel e seguida por Pulp Fiction ligando sua cinematografia aos grandes filmes de crime passados na cidade, notadamente os de Michael Mann e recentemente, Nicolas Winding Refn em Drive.    

No relacionamento entre Jackie Brown e Max Cherry fica claro o aceno do autor para temas como a maturidade em relacionamentos e a paixão que queima lenta, em fogo brando, mas nunca insincera. Os dois estabelecem um elo importante durante o filme e revelam um lado do cineasta mais romântico, sem nunca resvalar na desimportância das comédias românticas ou dramalhões de Hollywood. Este relacionamento descrito por Tarantino não tem muito lugar no cinema e nem no mundo, e por isso ressoa muito forte no filme. Não é uma trama de super heróis, ou mesmo de mocinhos e bandidos. Mesmo conseguindo incutir no filme várias de suas paixões, dos filmes blaxploitation dos anos 70 até a trilha sonora bem escolhida, o que fica na fita é um Tarantino completamente vulnerável e amadurecido, disposto a encarar seu ofício como cineasta de maneira consistente e com talento suficiente para deixar de ser apenas o diretor sensação de uma temporada. 

É curioso notar como o público na época deu as costas ao filme e o transformou no maior fracasso comercial da carreira de Tarantino até hoje. Injustiça das grandes, fica claro que o autor se empenhou em entregar algo maior do que seu público pretendia ou mesmo poderia desejar. Não importa. Em consequentes revisões, hoje Jackie Brown desfruta de status privilegiado na carreira do cineasta e provou que o tempo é juiz de muitas obras cinematográficas. Um filme de confirmação da carreira de Tarantino, que entraria em um hiato de quase seis anos até entregar seu mais ambicioso projeto: Kill Bill.    


sábado, 19 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA TARANTINO: PULP FICTION (EUA, 1994, 155min. Dir.Quentin Tarantino)

Eu sei, você que me conhece ou é leitor desse blog já cansou de ouvir falar no Pulp Fiction, certo? Certo. Quando eu tinha vinte anos, arrumei um emprego numa videolocadora aqui pertinho da minha casa e por algum tempo meu sonho era seguir a trajetória de Tarantino. O conto de fadas do balconista de locadora que viu todos os filmes e depois se tornou o cineasta mais influente dos anos 90 nunca saiu da minha cabeça, influenciou a mim e mais um monte de moleques que queriam ser, de uma vez por todas, Quentin Tarantino. O sonho continua forte e vivo, subindo colinas e descendo vales, mas como eu já falei de maneira detalhada sobre este que é o filme mais importante do cineasta, vamos tentar uma coisa diferente.

Pulp Fiction é o filme da dança, aquele em que John Travolta parou de falar com bebês e finalmente renasceu. É o que revelou Uma Thurman, Samuel L.Jackson, Ving Rhames numa tacada só e de quebra deu novo rumo à carreira de Bruce Willis. É o filme da overdose, o filme do estupro anal, o filme maluco com o roteiro fora de ordem, aquele em que o mocinho morre na metade, em que a mocinha pontilha a tela para chamar o cara de quadrado. Acima de tudo, é o filme que confirmou Quentin Jerome Tarantino como o cineasta americano mais importante saído dos Estados Unidos nos anos 90, permanecendo até hoje no topo, fazendo tudo como quer, ao seu tempo, com suas regras. E isso quem estiver lendo me desculpe se discorda, mas é rock'n'roll paca.

É rock'n'roll porque Tarantino aprendeu a fazer cinema assistindo cinema, e passou a infância toda sendo levado pela mãe em infindáveis sessões duplas nos mais variados muquifos de Los Angeles até chegar à maioridade, quando arrumou um emprego de lanterninha em um cinema pornô e daí em diante nunca mais olhou para trás. Sua sensibilidade cinematográfica aprendeu a equilibrar filmes de kung-fu e Godard, Dario Argento e Spielberg, De Palma e Leone. Sua paixão por filme nunca diminuiu. Se toda essa biografia foi inventada, eu não ligo; é empolgante de qualquer jeito.

Do outro lado do Atlântico, exatamente em 1994, um bando de arruaceiros de Manchester também se preparavam para tomar a cena musical de assalto com uma proposta muito parecida com a do cineasta: um revisionismo sincero das grandes referências da história do rock'n'roll britânico com um molho de vivência própria, sem se curvar ao mercado e tentando escrever um livro novo de regras ao mesmo tempo em que se tornavam um novo marco zero da música independente, criando um exército de seguidores. O nome da banda é OASIS. 

O cabeça da banda foi Noel Thomas David Gallagher, e o Oasis, assim como arrebatou o público de maneira inegável por vários anos, terminou também de maneira explosiva numa briga entre Noel e seu irmão Liam, ambos membros remanescentes da formação original. Mas Noel Gallagher continua, e aplica aos seus discos como artista solo acompanhado de banda a mesma abordagem de sempre desde os tempos de Oasis: colagem pós moderna usando toda referência como recombinação consciente do passado. Dá certo.

Quentin Tarantino faz exatamente o mesmo em seu campo de atuação. Utiliza um arsenal de referências assimiladas de todos os filmes que assistiu para remixar esse apanhado de idéias e reinseri-las em um novo contexto, com completo domínio da escrita e da estrutura literária em seus roteiros. Mas isso é muito técnico, muito pouco verdadeiro com o que realmente significa toda essa parada que estou organizando aqui.

O que realmente preciso dizer e sempre reafirmar é que cultura pop é jogo de jovens, e seja em cinema, música, literatura, fotografia, quadrinhos ou outras formas de expressão artística, quem move esse mundo de verdade é gente de sangue quente e com gana de conquistar o mundo, incendiar pra valer a mente das pessoas. E esse intento quase sempre é visceral e não intelectual. Tarantino e Gallagher são grandes artistas de rua que ousaram e hoje são brands, marcas, viraram adjetivos, sem jamais perder a contundência em seus trabalhos. Conseguiram de fato influenciar toda uma geração e mudaram o panorama artístico no mundo todo, deixaram sua marca. Ao mesmo tempo chamaram a atenção para a importância da conservação do passado cultural, da busca pelas referências na construção de uma obra. Conseguiram fazer isso sem um pingo de inacessibilidade. Se o discurso dos dois em entrevistas é verborrágico e soa arrogante, é um claro jogo de cena buscando recuperar o brio combalido do artista vindo de baixo ante a máquina que cospe dia após dia embustes fabricados. 

A verdade destes dois artistas, unidos aqui em um capricho meu por terem abrido meu córtex à golpes incisivos de genialidade e inovação está na obra deles: discos e filmes populares que podem ser consumidos sem restrição, fervilhantes em idéias e conceitos e acessíveis, disponíveis a todas as gerações que tiverem algum interesse sobre o que aconteceu na arte popular dos anos 90 em diante. A verdade está em não esconder do público o jogo, em entregar a catarse e assumir que fazer sucesso é bom, gera dinheiro, alimenta mais os artistas independentes e renova a indústria, que feliz, observa e contrata mais artistas com voz própria.

Assim como Noel Gallagher e seus dois primeiros e incensados discos sob a égide do Oasis, Tarantino sempre será lembrado por Pulp Fiction. Porque é o filme que revolucionou tudo, de maneira despretensiosa, com um amadorismo cativante e ousadia que não encontrava par na época. Esse é o momento singular em que o artista ainda é muito jovem e inocente, e tem força suficiente para concretizar todos seus ímpetos sem que alguém o limite. Ele não pensa se existe um público, mas por outro lado, ele ainda é como seu público, ainda pensa e existe na mesma classe. Depois da explosão tudo isso muda, e sábio é quem sabe sobreviver no mapa sem desaparecer ou empalidecer. 

Mais uma vez traçando paralelo com o maior hit de Gallagher, "Wonderwall", Tarantino e seu Pulp Fiction é uma obra que fala sobre nada e sobre tudo; mantém seu poder de interesse em um conteúdo enigmático que nunca se revela completamente mas que provoca fascinação e paixão crescente a cada revisão. É a evocação de um sentimento ou de vários deles, um cartão postal do caleidoscópio de sentimentos que é a vida, variando subitamente de gênero á gênero conforme mudanças de humor. Mais que tudo, a confirmação do sentimento maior de que fazemos parte de algo em curso que ainda não acabou. E que pode ser a qualquer momento interrompido de maneira súbita e sem aviso. Antes que meu tempo acabe, concluí que Pulp Fiction é um filme que fala enfim, sobre a

 "Todas as histórias são continuações; influência é felicidade"  -Michael Chabon, escritor, em 2015.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA (EUA, 2015,122min., Dir. J.J.Abrams)

A grande ideia por trás de Star Wars e seu calcanhar de aquiles sempre foi justamente aquilo que faz qualquer fã babar e afasta muita gente contrária à série: é cinema mas é seriado, é episódico e tem ritmo de televisão, clima de matinê grandiosa com mocinhos, vilões e tudo que o escapismo embalado pelos melhores efeitos especiais pode proporcionar. 

George Lucas, o criador da coisa, é visionário, mas tem mão pesada, e a segunda trilogia iniciada em 1999 e finalizada há dez anos em 2005 provou que se o homem é um midas dos efeitos digitais, de alguma forma utilizar-se de três filmes para contar a história de Darth Vader, o vilão, foi uma decisão equivocada que se ao menos rendeu bons momentos principalmente ao final do terceiro filme, também terminou por anular a luz da série, o ponto de vista do herói e a imprevisibilidade das reviravoltas.

E é aí que "Star Wars - O Despertar da Força" acerta no alvo e empolga. Entra J.J. Abrams, o criador de dois dos seriados mais famosos dos últimos tempos: "Alias" e "Lost", ambos conhecidos por seus enredos mirabolantes. Em seguida emplacou uma carreira cinematográfica exemplar onde adaptou com êxito não uma, mas duas franquias baseadas em séries de TV dos anos 60: seu "Missão: Impossível 3" e  os"Star Trek 1 e 2" são exemplos de revitalização e adaptação para a tela grande de todos os maneirismos e esquemas utilizados em seriados de TV. Abrams sabe utilizar o poder da estrutura em um roteiro, sabe entregar personagens interessantes, frases de efeito, boas reviravoltas. Acima de tudo respeita as regras dessas séries e entende o apelo que cada uma tem de mais singular. Entrega isso ao fã ou ao espectador de ocasião sem cerimônia. Tem experiência na direção de atores e filma cenas de ação com efeitos especiais habilmente, sem complicar.

E o acerto na escolha do diretor reflete um filme de aventura coeso e emocionante, despreocupado em reinventar a roda; consciente da herança deixada pela trilogia original e resgatando uma alegria de cinema mais crua, algo em falta nos blockbusters atuais. Abrams e seu colaborador no roteiro Lawrence Kasdan mantém a história muito simples: após o desfecho de "O Retorno de Jedi", Luke Skywalker desaparece. E enquanto as forças do Império e Rebeldes se reorganizam, uma batelada de novos personagens se unem aos clássicos e partem em busca do Mestre Jedi supremo. Um ponto de partida que poderia dar errado, não fossem os novos personagens tão carismáticos ( Rey, uma heroína fabulosa que confirma de 2015 em diante o feminismo ditando papéis empolgantes e decisivos no cinema de ação moderno; Finn, um Stormtrooper que se volta para o lado dos heróis, e Poe Dameron, exímio piloto da resistência. O vilão, Kylo Ren, também surge com conflitos interessantes) e os velhos conhecidos tão bem dirigidos e com papéis fundamentais na trama. Harrison Ford, notadamente espetacular em cena recuperando com garra os trejeitos do anti-herói Han Solo, surge como destaque entre veteranos como Carrie Fisher, Anthony Daniels, Peter Mayhew e...vocês sabem quem, não vou dizer.

Particularmente não me considero um fã doente da série, mas sempre acompanhei com razoável empolgação e prazer esse desejo de cinema e aventura à moda antiga da trilogia original, que evoca tanto filmes de samurai quanto westerns.  A segunda trilogia dirigida por Lucas me fez perder muito o interesse por esse universo, admito. Mas esse é o filme certo, na hora certa, que pode reacender o ânimo dos já iniciados como eu e com certeza vai atrair o interesse de um novo séquito de neófitos prontos para os próximos filmes. É certo que "O Despertar da Força" é o melhor filme da série em mais de trinta anos. Se os criadores souberem manter todos os elementos clássicos e atraírem novos cineastas para injetar novas idéias ao jogo, acho que uma nova era de ouro para a saga espacial criada por Lucas se aproxima. Dedos cruzados, porque o diretor do próximo episódio marcado para 2017 é Rian Johnson, cineasta novato criador da pequena obra-prima "Looper", baita fita de ficção científica. 

Todo mundo pode dormir sossegado agora. Meus caros, com prazer declaro que Star Wars abandona sua sina de comercial para venda de brinquedos e merchandising e recupera com louvor sua posição no centro de um cinema fantástico de qualidade, inventivo e bem-intencionado. Já não era sem tempo.        

*INTERMISSÃO: PORQUE STAR WARS IMPORTA?

*
*Uma breve interrupção na Retrospectiva Tarantino para esse texto e a resenha de "Star Wars - O Despertar da Força" 

Faltando algumas horas para a estréia de "Star Wars - O Despertar da Força", sétimo episódio da saga espacial concebida por George Lucas e agora levada adiante pelas mãos de J.J.Abrams e seus colaboradores, a ansiedade é grande para conferir um evento cinematográfico que promete recuperar a relevância do cinema comercial em tempos tão bicudos. A internet já pipoca reações positivas de críticos e fãs empolgados nos Estados Unidos, onde a obra já teve première concorridíssima, assim como Inglaterra. 

De qualquer forma, só abri esse post para tentar adicionar algumas idéias sobre a relevância e impacto de Star Wars para o cinema comercial como um todo desde o final dos anos 70 e também tentar desfazer alguns mal-entendidos. 

George Lucas criou em 1977 um filme diferente da ficção-científica embasada e complexa. Sua intenção era resgatar o espírito de aventura das matinês, como do cowboy Roy Rogers e do explorador espacial Flash Gordon. As histórias em quadrinhos desenhadas por Jack Kirby, influência confessa do cineasta, também entraram no caldeirão de referências, assim como a filosofia de Joseph Campbell em seu livro-ensaio "O Poder do Mito", uma anatomia da saga do herói que ecoou de maneira potente na imaginação de Lucas e refletiu a criação da dualidade bem/mal assim como a retidão moral de seus protagonistas.

O impacto comercial sem precedentes só veio confirmar a existência de uma nova demografia de público: o jovem/adolescente consumidor voraz de histórias em quadrinhos, fanático por tecnologia e seriados de TV, além de comida fast-food e rock'n'roll. Em sua gênese, George Lucas atraiu e moldou o conceito daquilo que hoje se convenciona chamar de 'nerd', ou 'geek'. E foi esse público que notadamente tornou Star Wars o fenômeno que segue inabalável até hoje. Alguns célebres fãs se tornaram atores que não escondem sua admiração (Simon Pegg), até mesmo cineastas (David Fincher considera "O Império Contra-Ataca" um dos filmes de sua vida e começou a carreira na Industrial Light and Magic como estagiário neste filme).

Mas falando de cinema propriamente dito, é um gosto adquirido. Existe sim bastante rejeição ao escapismo juvenil criado pelo cineasta. E da minha parte, acho compreensível também. O "Episódio IV- Uma Nova Esperança", dirigido por Lucas e "V -O Império Contra Ataca", de Irvin Kershner, tem momentos de grande cinema, possuem roteiros engenhosos e são quase faroestes espaciais cheios de clima e excelentes reviravoltas. Os outros episódios seguem a linha estabelecida sem grandes arroubos de genialidade, mas são queridos pelos fãs.

Gostando ou não, o ritual popular proposto por essa cinessérie de espírito leve e aventuresca é digno de menção para a história do cinema, pois sempre servirá como porta de entrada para muitos jovens e crianças que são levados à assistirem e terminam por adquirir interesse, ou mesmo fanáticos de ocasião que celebram o culto com suas fantasias, brinquedos e histórias em quadrinhos.

E é munido dessa ideia de diversão leve e a intenção de ser transportado por duas horas para um mundo bem diferente desse aqui é que me despeço, pego meu chapéu e volto daqui algumas horas para a resenha de "Star Wars - O Despertar da Força". Se resgatar ao menos um pouco do espírito de 77, será uma agradável surpresa.                       

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

RETROSPECTIVA TARANTINO: CÃES DE ALUGUEL (EUA, 1992, 99min., dir. Quentin Tarantino)

Não me perguntem como estas coisas acontecem, mas há duas horas atrás eu estava escarrapachado no sofá, quase dormindo. E de repente, fui acordado por um baita raio, seguido de vários trovões, daqueles que fazem os cristais tilintarem. 

Ato contínuo, recuperado e assegurando-se de que a Terceira Grande Guerra não havia chegado, ainda atônito, liguei a tv e decidi assistir Cães de Aluguel, a estréia ruidosa de Quentin Tarantino, o último enfant terrible do cinema que numa tacada só revigorou o interesse de várias gerações de cinéfilos e de quebra reintroduziu no cânone do cinema policial estadunidense uma verve ética e viril, verborrágica e sanguinolenta. E que assim seja.

Com a proximidade de seu novo filme, Os Oito Odiados, vale a pena revisar toda a obra e porque não, encontrar aqui e ali detalhes que passaram despercebidos em revisões anteriores. Ou que diabos, apenas pela diversão pura e espontânea de se conferir um grande cineasta desfrutando de um apogeu criativo que já contabiliza mais de vinte anos, sem nunca decair na qualidade de sua produção.

De Cães... já se falou de tudo; o 'filme da orelha cortada', 'violentíssimo', 'plagio de filme chinês'. Mas é preciso má vontade aos borbotões para não perceber a inventividade da montagem, que evoca sabiamente Kubrick e seu O Grande Golpe. Não é uma ideia exatamente original contar a história de um assalto que dá espetacularmente errado pela ótica dos assaltantes após o fracasso da empreitada (o chinês City of Fire de fato também bebe da fonte e reprocessa através da estética da ação de Hong Kong), mas vale a pena lembrar que o marasmo reinante no cinema americano comercial em 1992 era algo que fazia Tarantino surgir parecendo Welles. Seu filme, desde a produção dos mavericks Monte Hellman (do seminal Two-Lane Bricktop, um clássico dos Drive-Ins) e Harvey Keitel (ator de Scorsese e Ferrara ressurgindo em atuação definitiva) passando pela escalação do escritor veterano e ex-presidiário Eddie Bunker e chegando à descoberta dos revisionistas em estilo de atuação Michael Madsen e o inglês Tim Roth, transborda um senso de comprometimento e desligamento do mainstream reinante na época que já o colocava em contraste com toda a linha de produção das fitas policiais aguadas produzidas na década de 90.

Mais do que isso, é um filme sobre o ato de mentir, de atuar, de dissimular. Sobre o ofício de ser ator, de convencer um grupo, de exercer carisma e se perder dentro desse motif.  Ao disfarçar o peso das traições e das múltiplas reviravoltas sob uma camada de cultura pop, diálogos afiados e violência que não pede desculpas, Tarantino revela aos poucos o tema da lealdade como força motriz de seu roteiro. Mas não o faz jamais de maneira piegas. É tudo frio e distante, como convém aos filmes noir influenciados pelo expressionismo alemão que diziam tudo através de imagens, atos e contrastes rascantes de preto-e-branco. Aqui, a imagética dessas duas cores é invadida por uma profusão de vermelho-sangue, um carnaval de vitalidade que jorra das entranhas de um Tim Roth alvejado, pedindo piedade por quase toda a projeção, mas finalmente detentor do segredo revelador; da alegria da destruição, do prazer quase infantil da conspiração de ser um infiltrado e convencer uma platéia (primeiro seu comandante na polícia), duas plateias (os policiais no banheiro que desconfiam dele), três plateias (os bandidos para os quais conta o imbróglio com os policiais no banheiro) e por fim a quarta platéia (nós, espectadores), que após testemunhar o ato mais bárbaro do filme, a já famosa  'tortura da orelha', quase sem suportar mais o apresentado, recebe no colo a revelação que muda todo o rumo do filme e o joga sob nova perspectiva. 

Se todos os atores fazem o possível para emular Lee Marvin, Eli Wallach, Clint Eastwood, Warren Oates e outros brucutus célebres do gênero de ação das décadas anteriores, não é acidente. Tarantino evoca na direção de atores toda a história do cinema-macho americano para fazer lembrar, com efeito,  uma época em que as ameaças não eram fugazes e as frases de efeito não eram meros ganchos cômicos. Quando quebra essa regra no diálogo do restaurante versando sobre Madonna e gorjetas e depois com Madsen, o proto-psicopata supremo, dizendo a frase "Ei cachorrinho, vai latir a noite toda ou vai morder?", é a piscadela de olho do diretor para os anos 90, para a modernidade. Modo de dizer que por baixo daquele simulacro todo de macheza e retidão entre bandidos já estivesse plantada ali a semente para uma década amoral, de desilusão e um vazio pop que ecoa até hoje. 

De resto, encarar um filme desse nível é como ouvir pela milésima vez um disco de sua banda favorita. Sabe-se exatamente tudo o que vai acontecer, mas a cada virada de estrofe, a cada refrão, a cada solo de guitarra é como se você subitamente reacendesse a paixão pela coisa e relembrasse o porquê daquele artista ter lhe cativado em primeiro lugar. Em segundo, a confirmação patente: não é todo dia que um cineasta tão faminto pelo ofício, tão vital e descomprometido com qualquer regra comercial a não ser as suas próprias surge na cena, a toma de assalto e súbito, inventa ou reinventa um estilo, não aceita ordens de ninguém e seco, dá o seu recado com toda a atitude do mundo. E agora eu sei exatamente porque eu vi esse filme, logo após ser acordado por um puta raio! Eternamente agradecido, Tarantino.