E eis que o ciclo de filmes policiais anos 70/ começo dos 80 chega ao final com 'Driver', fita de 1978 que traz a direção do expert no gênero Walter Hill e é estrelada por Bruce Dern (no auge da loucura), a então novata (e linda) Isabelle Adjani, e Ryan O'Neal, galã de 'Love Story' e ' Barry Lyndon', fazendo aqui o papel-título, emulando os maneirismos de Steve McQueen, que não aceitou fazer o filme por achá-lo muito parecido com seu triunfal 'Bullitt', filmaço que revolucionou o cinema de ação em 1968, trazendo o astro fazendo suas próprias cenas de ação, dispensando dublês numa sequência rodada nas ladeiras de San Francisco dirigindo um Mustang GT 390 Fastback em manobras ousadas até para dublês veteranos.
Mas 'Bullitt' fica para outro dia. 'Driver', um misto de faroeste moderno com perseguições insanas de carro, conta a história do personagem título, cujo nome nunca é revelado. Sua especialidade é dirigir carros em fuga para assaltantes. Seu método é minimalista, assim como seu discurso: ele simplesmente age, e esse ação é completamente descritiva. Um fora da lei que só existe em celulóide, esse 'driver' é antes de mais nada filhote de McQueen, Charles Bronson e principalmente Alain Delon em 'O Samurai', de Melville. Sua existência é definida puramente pelas missões que recebe, e essa presença taciturna faz o charme da fita. Numa época de pretensos machões, chorões que falam muito e fazem pouco, um protagonista silencioso diz muito sobre como o herói de ação era encarado há 20, 30 anos atrás. Ryan O'Neal não é um grande astro, não possui carisma, e isso colabora mais ainda com o distanciamento emocional necessário para não nos identificarmos ou torcermos pelo personagem.
Carisma para dar e vender tem Bruce Dern, interpretando 'o detetive', policial esculachado e cheio de frases prontas que toma a perseguição contra o 'driver' de maneira pessoal. Quando Dern aparece em cena, é sempre um barato vê-lo doidão, vomitando regras furadas, discursos vazios e proferindo ameaças. Na obsessão de capturar o anti-herói, contrata uma gangue de assaltantes e os obriga à contratar o motorista para um assalto, que monitorado pela polícia pode resultar na captura que tanto deseja. É claro que as coisas se complicam, envolvendo Isabelle Adjani como uma suposta testemunha de uma das fugas espetaculares do motorista e várias reviravoltas e cenas inacreditáveis de perseguição policial.
Curioso como esse filme simplesmente passou por baixo do radar de colecionadores e apreciadores do gênero. De fato não é uma fita que busca originalidade, mas Walter Hill, que foi colaborador de Peckinpah e dirigiu clássicos como 'Lutador de Rua' e '48 Horas' entende de ação como poucos. Sabe ser minimalista na condução do roteiro sem perder a levada acelerada do filme, e mantém o interesse tanto em cenas movimentadas (muito bem conduzidas numa Los Angeles sempre notívaga) quanto em cenas íntimas, de interiores, onde a sordidez dos ambientes como hotéis baratos, botecos e ruas mal-iluminadas contrastam muito bem com a ambigüidade dos personagens. Destaque ainda para duas cenas de perseguição automobilística que merecem figurar entre as melhores já realizadas até hoje.
Encerro aqui esse pequeno ciclo que revisou de maneira modesta três filmes americanos um pouco mais obscuros que, cada um à sua maneira, ajudaram a definir o cinema policial de ação adulto. Realizados por grandes diretores, são o lembrete de que o feeling e a compreensão dos símbolos e, porque não dizer, 'clichês', funcionam muito mais do que um grande orçamento e astros fabricados. Alguns diretores contemporâneos como Tarantino e Nicolas Winding Refn parecem ter herdado essa sensibilidade. Outros como Fincher e Nolan parecem retrabalhar essa iconografia e apresentá-la em novos contextos, em filmes como 'Seven' ou 'Insônia', respectivamente. Não importa. O grande barato da pesquisa e análise dos filmes é justamente a habilidade minha e sua, que está lendo isso, de processar essas referências, encontrar pontos de intersecção nas idéias e abordagens desses grandes autores e, com o tempo, desenvolver uma nova maneira de apreciar filmes que numa primeira projeção parecem banais na superfície, mas que tem muito a oferecer. Basta olhar com um pouco mais de atenção.
domingo, 18 de setembro de 2011
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Viver e Morrer em Los Angeles (To Live and Die in L.A., EUA, 1985, 117 min.)
Hoje é a data de estréia nos cinemas americanos daquele que possivelmente se tornará o grande filme do ano para amantes dos filmes de ação mezzo Pulpy/ Noir: Drive, de Nicolas Winding Refn. E esse blog divulga a crítica do segundo filme que faz parte do pequeno ciclo de obras que serviram como fonte de inspiração para o diretor Refn na realização de seu novo trabalho.
'Viver e Morrer em Los Angeles' é um filme policial que conta uma história muito simples: um detetive de Los Angeles (William Petersen, que trabalhou com Michael Mann em Manhunter e posteriormente se tornou astro da série de TV C.S.I.) sai à caça de um sociopata falsificador de notas, interpretado com verve pelo grande Willem Dafoe.
Tomando partido desse argumento batido, William Friedkin faz aqui seu melhor filme desde 'Sorcerer-Comboio do Medo', refilmagem de 'O Salário do Medo' que Clouzot realizara em 1953 e Friedkin refilmara com Roy Scheider em 1977. Friedkin é diretor com mão pesada, que se encaixa perfeitamente em projetos como os seminais Operação França e O Exorcista. É uma questão de gosto pelo lado escuro da natureza humana, um modo de ver o mundo que para um filme como esse 'Viver e Morrer em L.A.' caiu de maneira perfeita.
A Los Angeles retratada pelo filme é a dos becos-sem-saída, dos ferro-velhos: suja, feia, perigosa. Acompanhamos a descida ao inferno do detetive ao mesmo tempo em que Friedkin faz a tradução visual da decadência moral descrita no roteiro. É um mundo de traidores: informantes, traficantes, policiais. Ninguém sai ileso, mas ao mesmo há um senso de beleza meio esquisito que nos lembra: estamos em 1985. Isso aqui ainda é antes de Tarantino, antes do ultra-realismo de Paul Greengrass. Há uma influência forte de Miami Vice, e por extensão, o nome recorrente ao cinema policial da época: Michael Mann. É uma busca pelo realismo que se traduz mais no modus operandi de mocinhos e bandidos (Friedkin declara nos extras do dvd que trabalhou com vários consultores policiais para dar verossimilhança à linguagem e ações dos personagens, coisa inédita para a época) do que no aspecto plástico do filme, coloridíssimo e pontuado por canções típicas da época, emulando os sintetizadores de Giorgio Moroder ou a própria trilha sonora de Thief composta pelo grupo Tangerine Dream.
Friedkin ficou famoso pela sua perseguição de carros em Operação França e aqui ele retoma essa regra obrigatória que faz parte do cânone das produções policiais americanas. Por dez minutos, acompanhamos, quase sem diálogos, um longo exercício de estilo, onde a câmera do diretor não mede esforços para nos inserir no meio de uma frenética corrida de carros. Merece entrar para a lista das grandes cenas de ação já filmadas. Contando na época apenas com logística e uma vontade feroz de realizar uma sequência das mais ousadas já concebidas, Friedkin e seus colaboradores interditaram várias ruas de Los Angeles. Rodaram, durante o dia, talvez a maior perseguição de carros realizada nos anos 80. É uma marca registrada do diretor que aqui se adequou perfeitamente ao material. Ele ainda tentaria uma cena parecida, mas dessa vez com resultados desastrosos, no péssimo filme' Jade', fita de 94 com David Caruso e Linda Fiorentino.
Curioso observar que 'Viver e Morrer em L.A.' não é mesmo o tipo de filme sobrevivente ao teste do tempo. Pelo contrário. Seu charme reside justamente em sua inadequação, em como ficou congelado em seu retrato de uma época de exageros e imperfeições. Mas são justamente essas imperfeições que fazem do filme tão esquisito e interessante, quase um alienígena ao meio das produções realizadas na época. É a marca do diretor William Friedkin, que mesmo irregular, sempre faz de seus filmes experiências memoráveis. Felizmente, esse filme é mais um exemplar do seu virtuosismo na direção de fitas policiais.
(No terceiro e último filme do ciclo, comentarei o filme 'Driver', produção de 1978, dirigido por Walter Hill, com Ryan O'Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani.)
'Viver e Morrer em Los Angeles' é um filme policial que conta uma história muito simples: um detetive de Los Angeles (William Petersen, que trabalhou com Michael Mann em Manhunter e posteriormente se tornou astro da série de TV C.S.I.) sai à caça de um sociopata falsificador de notas, interpretado com verve pelo grande Willem Dafoe.
Tomando partido desse argumento batido, William Friedkin faz aqui seu melhor filme desde 'Sorcerer-Comboio do Medo', refilmagem de 'O Salário do Medo' que Clouzot realizara em 1953 e Friedkin refilmara com Roy Scheider em 1977. Friedkin é diretor com mão pesada, que se encaixa perfeitamente em projetos como os seminais Operação França e O Exorcista. É uma questão de gosto pelo lado escuro da natureza humana, um modo de ver o mundo que para um filme como esse 'Viver e Morrer em L.A.' caiu de maneira perfeita.
A Los Angeles retratada pelo filme é a dos becos-sem-saída, dos ferro-velhos: suja, feia, perigosa. Acompanhamos a descida ao inferno do detetive ao mesmo tempo em que Friedkin faz a tradução visual da decadência moral descrita no roteiro. É um mundo de traidores: informantes, traficantes, policiais. Ninguém sai ileso, mas ao mesmo há um senso de beleza meio esquisito que nos lembra: estamos em 1985. Isso aqui ainda é antes de Tarantino, antes do ultra-realismo de Paul Greengrass. Há uma influência forte de Miami Vice, e por extensão, o nome recorrente ao cinema policial da época: Michael Mann. É uma busca pelo realismo que se traduz mais no modus operandi de mocinhos e bandidos (Friedkin declara nos extras do dvd que trabalhou com vários consultores policiais para dar verossimilhança à linguagem e ações dos personagens, coisa inédita para a época) do que no aspecto plástico do filme, coloridíssimo e pontuado por canções típicas da época, emulando os sintetizadores de Giorgio Moroder ou a própria trilha sonora de Thief composta pelo grupo Tangerine Dream.
Friedkin ficou famoso pela sua perseguição de carros em Operação França e aqui ele retoma essa regra obrigatória que faz parte do cânone das produções policiais americanas. Por dez minutos, acompanhamos, quase sem diálogos, um longo exercício de estilo, onde a câmera do diretor não mede esforços para nos inserir no meio de uma frenética corrida de carros. Merece entrar para a lista das grandes cenas de ação já filmadas. Contando na época apenas com logística e uma vontade feroz de realizar uma sequência das mais ousadas já concebidas, Friedkin e seus colaboradores interditaram várias ruas de Los Angeles. Rodaram, durante o dia, talvez a maior perseguição de carros realizada nos anos 80. É uma marca registrada do diretor que aqui se adequou perfeitamente ao material. Ele ainda tentaria uma cena parecida, mas dessa vez com resultados desastrosos, no péssimo filme' Jade', fita de 94 com David Caruso e Linda Fiorentino.
Curioso observar que 'Viver e Morrer em L.A.' não é mesmo o tipo de filme sobrevivente ao teste do tempo. Pelo contrário. Seu charme reside justamente em sua inadequação, em como ficou congelado em seu retrato de uma época de exageros e imperfeições. Mas são justamente essas imperfeições que fazem do filme tão esquisito e interessante, quase um alienígena ao meio das produções realizadas na época. É a marca do diretor William Friedkin, que mesmo irregular, sempre faz de seus filmes experiências memoráveis. Felizmente, esse filme é mais um exemplar do seu virtuosismo na direção de fitas policiais.
(No terceiro e último filme do ciclo, comentarei o filme 'Driver', produção de 1978, dirigido por Walter Hill, com Ryan O'Neal, Bruce Dern e Isabelle Adjani.)
sábado, 10 de setembro de 2011
Profissão, Ladrão (Thief, EUA, 1981, 117 min.)
Após um longo tempo sem postar neste blog, o escriba que vos fala poderia comentar muitos filmes novos que já foram vistos e devidamente absorvidos (A Árvore da Vida, Um Sonho de Amor, entre outros), mas devido à proximidade da estréia nos EUA daquele que pode se tornar o grande filme de 2011, Drive, de Nicolas Winding Refn, esse blog começa aqui um pequeno ciclo de três filmes quintessenciais para se entender o cinema de ação do final dos anos 70/começo dos 80, pré-Duro de Matar. Fitas policias herdeiras de alguma estrutura dos faroestes e sempre dirigidas por grandes nomes como Michael Mann, William Friedkin e Walter Hill. Como já consegui apurar por sites e revistas importadas, esse subgênero cinematográfico foi o referencial do diretor Refn para a realização de Drive. Então nada mais justo do que revisitar filmes aparentemente esquecidos por aí, nas prateleiras das locadoras, nos canais da Tv a cabo, nos torrents da vida.
Hoje é com muita satisfação que comento o grande filme Thief- Profissão Ladrão, obra de 1981 que marcou a estréia de Michael Mann na direção de longas para cinema. É estrelado por James Cann em atuação extraordinária, coadjuvado por Tuesday Weld, James Belushi e Robert Prosky.
O personagem-título é um negociante de carros usados, Frank (James Caan), ex-presidiário que ganha a vida de fato realizando roubos ousados de jóias, arromabando cofres com grandes somas de dinheiro. Seu código de ética para os assaltos envolve sempre trabalhar sozinho e nunca roubar artefatos que possam ser rastreados- coleções, títulos do tesouro nacional ou moedas raras estão fora de seu escopo de ação.
Seu único homem de confiança é Barry (James Belushi), fiel escudeiro nos roubos e de caráter inabalável. Tirando isso, Frank é essencialmente um solitário. Ganha a vida como seu próprio patrão e aprecia viver sempre por contratos abertos, nunca se apegando à nada. Evita qualquer conexão com gangues e outros criminosos, até conhecer Jesse (Tuesday Weld), garota misteriosa que age aplicando golpes aqui e ali, cujo passado insinua uma conexão com traficantes de drogas e chefões do crime.
Não demora para um relacionamento começar entre os dois e Frank decide, súbito, que sua vida solitária e instável já não o satisfaz mais. Agora, com uma mulher em quem pode confiar e uma vida mais estável pela frente, ele quer mesmo é criar uma família, morar numa casa simples no subúrbio e abandonar os crimes de vez.
E nada é tão simples assim. Frank, inspirado pela obsessão em mudar o rumo de sua vida, faz um pacto com o demônio. Leo (Robert Prosky), chefe do crime organizado, reconhece o talento de Frank e o alicia, junto à uma equipe suspeita, para realizar um grande assalto. E para o bem e para o mal, pode ser o último da carreira de Frank. Daí para frente o destino desses personagens está irremediavelmente selado. Não há saídas fáceis, soluções absurdas.
Admito: Michael Mann é o diretor que de trinta anos para cá melhor soube utilizar os clichês do Grande Policial Noir Americano (assim mesmo, em maiúsculas) em favor de um cinema viril, sanguinolento, com grande senso de ética e uma ambição, uma busca quase extra-sensorial por uma espécie de Santo Graal que não existe nesse mundo físico em que nós e seus personagens habitam. Em todos seus filmes Mann discute o peso da tarefa, as relações de trabalho dentro dos moldes herdados do Faroeste. São homens que existem estritamente nos limites das funções que exercem. A vida é simplesmente uma aposta, e para Frank, voltar à prisão significa a morte. Um parti-pris ideológico muito parecido com o de Neil McCauley em Fogo Contra Fogo, vivido por Robert DeNiro. São estereótipos batidos, que nas mãos hábeis de Mann ganham um novo significado, justamente por sua obsessão em nunca fazer uma releitura ou sátira desse tipo de comportamento. Seu cinema se leva muito à sério, e até hoje suas fitas Collateral, Inimigos Públicos e Miami Vice continuam a trabalhar essa visão ética herdada do cinema americano dos anos 70 e dos romances policiais Noir de Raymond Chandler. Não há espaço para o humor negro feito de citações e colagens de um Tarantino por aqui.
Outra observação que não poderia passar despercebida é o tratamento que Michael Mann confere à ambientação dos personagens na cidade de Los Angeles. É como se para ele a cidade fosse uma musa idealizada, passível de vida apenas à noite. Ou melhor: esses personagens, marginais por convicção, saem de suas 'tocas' e realizam seus negócios ilegais sempre após a meia-noite, quando existem apenas para as luzes, distorcidas no contra-plano, quase uma pop-art que funde essa galeria de losers do sonho americano numa moldura poética, urbana e impiedosa, um deserto sentimental em plena cidade, sempre de madrugada. Ao mesmo tempo, assim como no Taxi Driver de Scorsese, é perceptível o interesse que o diretor nutre por essas figuras, transformando-nos em testemunhas de seus sonhos que não se realizarão e suas ambições impossíveis. Uma megalomania quase romântica que encontra ressonância em um momento da cultura americana muito especial, o final dos anos 70/início dos 80, quando Bruce Springsteen cantava sua ode aos excluídos, Darkness On The Edge Of Town, sobre becos sem saída e homens que não tinham outra escolha a não ser cumprir um destino trágico; mas para nosso deleite quase voyeurístico, muito cinematográfico. Não é uma crítica social, é apenas uma iconografia muito forte, um painel dos anti-heróis fracassados que sempre terão seu réquiem de luxo nas mãos de grandes realizadores como Mann.
Um comentário aqui para aquela que após O Poderoso Chefão, é provavelmente a grande atuação de James Caan. Há uma cena em que Frank se encontra com Jesse em um desses restaurantes de beira de estrada que só existem no imaginário americano. E que cena extraordinária. Em pouco mais de dez minutos, esperando um café e um hambúrguer, Frank relata a Jesse toda sua trajetória: como fez para sobreviver na cadeia, o forte código de ética que desenvolveu; seus sonhos; suas fraquezas...tudo é desenvolvido por Caan num monólogo arrepiante, evocando de imediato as cenas de Brando com Eva Marie-Saint em Sindicato de Ladrões. É um momento único e definidor da motivação do personagem. Ao mesmo tempo, o revela vulnerável a tal ponto que invoca uma tristeza, uma melancolia cara à todos os personagens de Mann. É uma consciência de que todos personagens do filme, exceto Jesse (Tuesday Weld), não chegarão vivos ao final.
Michael Mann, o último dos grandes diretores de ação americanos - Bravo!
(Próximo filme do ciclo ação/policial 70-80: 'Viver e Morrer em Los Angeles', de William Friedkin)
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Lanterna Verde (Green Lantern, EUA, 2011, 114 min.)
Lanterna Verde, nas histórias em quadrinhos da DC comics, ganhou muita popularidade nos últimos anos graças às sagas escritas por Geoff Johns e desenhadas por artistas como o brasileiro Ivan Reis e Ethan Van Sciver. Nunca foi uma unanimidade, mas tem um séquito fiel de seguidores e eventualmente, é um super-herói que faz parte da Liga da Justiça numa escala de poder logo atrás de Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Junte isso ao fato de que graças à rentabilidade dos superhero movies os estúdios estão rindo à toa, e eis aí a oportunidade perfeita para mais um herói ganhar as telas com um tratamento digno, certo?
Lamento, mas...errado. É triste dizer isso, mas Lanterna Verde é um filme em que todos os elementos estão lá, mas inexplicávelmente nunca decola, e termina deixando um gosto amargo de que não realizou seu potencial.
Muita gente reclama que o filme conta mais uma história de origem, mas acho isso bobagem. Afinal, como primeiro filme de uma suposta série, o correto mesmo é estabelecer as fundações para que o público possa ficar confortável com o mundo do personagem nas vindouras continuações. A história de Hal Jordan, que segue os passos do falecido pai como piloto de testes e é escolhido pelos Guardiões do Universo como protetor do 'quadrante' que inclui o Planeta Terra, e ganha o anel que lhe dá poderes apenas limitados pela sua vontade ou medo está toda traduzida em celulóide, como deveria ser.
Mas mesmo com o treino empolgante do novo Lanterna e um vilão interessante, Parallax (vivido na sua forma humana com gosto pelo esquisitíssimo Peter Saarsgard, de Educação), o filme nunca engrena. É claro que a escalação do péssimo Ryan Reynolds para viver o herói foi equivocada, mas é apenas um entre outros muito piores. A mocinha, Carol Ferris, vivida pela maravilhosa Blake Lively (The Town e Gossip Girl), também cumpre um destino estabelecido: o de acompanhante do herói, repetindo falas insossas e funcionando como muleta do roteiro para explicar ou delinear as intenções do herói.
A verdade é que o grande culpado pelo filme ter saído tão desinteressante é o diretor Martin Campbell, profissional tarimbado, diretor de fôlego que sabe conduzir o aspecto técnico das filmagens, mas não sabe contornar um roteiro ruim. A qualidade do seu filme depende exclusivamente do texto bem-acabado que tiver em mãos. Quando pega um escriba bom, como Haggis em Cassino Royale ou Ted Elliott e Terry Rossio em A Máscara do Zorro, tudo vai que é uma beleza. Agora, se o roteiro for ruim, sai debaixo. O homem tem mão pesada, e o que é pior, aceitou fazer esse filme pura e simplesmente como um emprego, pela grana. Isso fica claro em cada frame de filme. É claro que dinheiro é bom e todo mundo gosta, mas é inadmissível em pleno 2011 um filme desse quilate ser entregue a um operário da indústria, sem a menor afinidade com o personagem, apenas batendo o cartão e dirigindo um filme medíocre com bons efeitos especiais e só.
Na próxima vez (se houver próxima vez, claro), fica a dica: contratem pessoas que se importem de fato com a história e os personagens, de preferências fãs da HQ original. Ou pelo menos um diretor mais autoral, com intimidade com o material. Já ouviram falar em Edgar Wright? Guillermo Del Toro? Christopher Nolan? Bryan Singer? Matthew Vaughn? Pois é, todos os mencionados são de uma nova geração de diretores em completa sintonia com uma nova audiência, que exige desse tipo de filme mais do que a matinê de sábado protocolar de antigamente. Do jeito que está, Lanterna Verde é o melhor filme de super-herói...dos anos 90. E quem viu as produções da época sabe que isso não é, de modo algum, um elogio.
Planet Dos Macacos - A Origem ( The Rise of The Planet of The Apes, EUA, 2011, 105 min.)
Como disse a imortal Beatrix Kiddo num filme antes, 'First things first': lamentável o fato dos estúdios em Hollywood não confiarem mais na memória, no discernimento, na inteligência das pessoas. O fato é que certos filmes não precisam de reinício, de reboot, de reimaginação, nada disso: eles são imortais, mantém sua marca indelével na cultura pop e tem milhões de fãs, gente fiel que faz do culto, o ato supremo da cultura pop, seu regozijo ante a tanta porcaria que vem e vai nas temporadas cinematográficas.
Pois bem. Eis que esse 'Origem' do Planeta dos Macacos não tem nada de origem. Explico. Assim como aconteceu com Batman, James Bond, X-Men e outros, isso aqui é uma borracha total nos acontecimentos de todos os filmes anteriores da série e uma tentativa de reintroduzir o conceito para uma nova platéia, etc, etc.
Isso é, francamente, blábláblá de executivo de estúdio. Mas enfim. Se esse eterno recomeço já gerou filhos indesejados como o ótimo, mas mal-recebido Superman de Bryan Singer, outros, como Cassino Royale e Batman Begins, são revisões das mais bem-vindas ao cânone dos personagens, adições substanciais que funcionam como versões paralelas ao universo 'oficial' dessas séries.
E isso é Planeta dos Macacos - A Origem: um filme sensacional, que usa o nosso conhecimento prévio das regras da franquia para jogar essas mesmas numa nova perspectiva, inusitada e muito pertinente aos tempos selvagens que vivemos. O diretor Rupert Wyatt faz um ótimo trabalho ao costurar as discussões tão caras ao universo da série -humanidade, evolução, determinismo- junto com uma surpreendente mescla de estilos que adicionam uma vitalidade insuspeita à obra. Dentro do molde básico de um filme 'Planeta dos Macacos', Wyatt faz um filme de prisão, um drama muito bem ancorado pela atuação do grande John Lithgow e um terceiro ato eletrizante, que confirma o realizador como um diretor de ação de primeira linha.
A história funciona: acompanhamos a ascensão de Caesar, símio usado em experiências para a cura do Mal de Alzheimer pelo cientista Will Rodham (James Franco, cada vez mais sonolento). É claro que tudo leva à um acirramento de ânimos entre macacos e humanos, e eu não vou revelar mais nada aqui sob pena de ser um disseminador de spoilers, coisa que abomino. Destaque para a linda de morrer Freida Pinto como a veterinária ajudante do cientista.
Ao fim da projeção, o saldo é positivo. Ao mesmo tempo em que fica um dissabor pela total erradicação da história contada nos filmes anteriores e até na refilmagem anterior de Tim Burton, é animador um cineasta com idéias tão boas ter carta branca para executar sua visão num filme comercial. Assim como em X-Men- First Class, a Fox demonstra grande boa-vontade em revisitar, mesmo que desnecessariamente, conceitos ótimos por autores muito competentes. Então fica assim: mesmo sabendo que se trata de uma manobra mercadológica, é honesto, é um ótimo filme e, se der dinheiro, que venham as continuações. Que contradição.
Pois bem. Eis que esse 'Origem' do Planeta dos Macacos não tem nada de origem. Explico. Assim como aconteceu com Batman, James Bond, X-Men e outros, isso aqui é uma borracha total nos acontecimentos de todos os filmes anteriores da série e uma tentativa de reintroduzir o conceito para uma nova platéia, etc, etc.
Isso é, francamente, blábláblá de executivo de estúdio. Mas enfim. Se esse eterno recomeço já gerou filhos indesejados como o ótimo, mas mal-recebido Superman de Bryan Singer, outros, como Cassino Royale e Batman Begins, são revisões das mais bem-vindas ao cânone dos personagens, adições substanciais que funcionam como versões paralelas ao universo 'oficial' dessas séries.
E isso é Planeta dos Macacos - A Origem: um filme sensacional, que usa o nosso conhecimento prévio das regras da franquia para jogar essas mesmas numa nova perspectiva, inusitada e muito pertinente aos tempos selvagens que vivemos. O diretor Rupert Wyatt faz um ótimo trabalho ao costurar as discussões tão caras ao universo da série -humanidade, evolução, determinismo- junto com uma surpreendente mescla de estilos que adicionam uma vitalidade insuspeita à obra. Dentro do molde básico de um filme 'Planeta dos Macacos', Wyatt faz um filme de prisão, um drama muito bem ancorado pela atuação do grande John Lithgow e um terceiro ato eletrizante, que confirma o realizador como um diretor de ação de primeira linha.
A história funciona: acompanhamos a ascensão de Caesar, símio usado em experiências para a cura do Mal de Alzheimer pelo cientista Will Rodham (James Franco, cada vez mais sonolento). É claro que tudo leva à um acirramento de ânimos entre macacos e humanos, e eu não vou revelar mais nada aqui sob pena de ser um disseminador de spoilers, coisa que abomino. Destaque para a linda de morrer Freida Pinto como a veterinária ajudante do cientista.
Ao fim da projeção, o saldo é positivo. Ao mesmo tempo em que fica um dissabor pela total erradicação da história contada nos filmes anteriores e até na refilmagem anterior de Tim Burton, é animador um cineasta com idéias tão boas ter carta branca para executar sua visão num filme comercial. Assim como em X-Men- First Class, a Fox demonstra grande boa-vontade em revisitar, mesmo que desnecessariamente, conceitos ótimos por autores muito competentes. Então fica assim: mesmo sabendo que se trata de uma manobra mercadológica, é honesto, é um ótimo filme e, se der dinheiro, que venham as continuações. Que contradição.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Atração Perigosa (The Town, EUA, 2010, 125 min.)
Sem brincadeira: que tristeza é ver esse segundo filmaço de Ben Affleck como diretor (aqui também como ator principal) sendo esnobado no Brasil e não ganhando o merecido reconhecimento de crítica e público. Atração Perigosa ('tradução' estapafúrdia do título original, The Town) é um filme policial na tradição de Os Infiltrados e Fogo Contra Fogo, clássicos onde a obstinação de homens dos dois lados da lei é mais intensa que tiroteios ensurdecedores pela cidade (aqui Affleck filma Boston, sua cidade natal que sempre é retratada com muita sensibilidade pelo diretor/ator desde sua parceria com Matt Damon em Gênio Indomável).
Conta a história de Doug McRay (Affleck), ladrão de bancos que junto á sua gangue promove um verdadeiro arrastão pelos bancos de Boston. Desde muito jovem fazendo parte de um microcosmo criminal que envolve família e amigos de infância (como o contratante vivido pelo falecido Pete Postlethwaite e o parceiro no crime sanguinário e instável interpretado pelo ótimo Jeremy Renner), McRay foi escolhido pelo crime desde seus antepassados. Uma geração inteira de criminosos que não possuem outra escolha a não ser o assalto. Essa idéia familiar de contravenção é tão bem desenvolvida por Affleck quanto as cenas de ação, que explodem na hora certa: magistrais e cruas, lembrando Siegel, Mann, Friedkin.
Mas o estopim da virada para o jovem ladrão é a paixão por uma de suas vítimas, Claire (Rebecca Hall, belíssima atriz de Vicky Cristina Barcelona). Testemunha e traumatizada por um roubo no qual McRay e seus comparsas foram responsáveis, primeiro cabe ao ladrão monitorá-la e eventualmente matar a garota, caso ela revele saber demais sobre o ocorrido. Mas seguindo a grande tradição do filme policial americano, McRay se afeiçoa por Claire, o que muda todas as relações com a família criminosa, e o coloca em uma posição vulnerável para si mesmo e toda sua gangue. Com o FBI em seu encalço, simbolizado pelo obcecado agente Frawley (Jon Hamm), McRay precisa realizar seu último trabalho para fugir com Claire, abandonar a carreira criminosa e fugir de Boston para não voltar mais.
É um argumento batido, mas que nas mãos de Affleck parece revitalizado. Uma retomada do policial americano sério, no estilão anos 70, sem fazer concessões. O realizador devolve o cinema de ação ao berço das grandes tragédias familiares, retirando-o da vala comum dos duros-de-matar que infestam os multiplexes. Aqui é cinema adulto, comercial e ao mesmo tempo honesto, que reconhece a capacidade do público em apreciar uma boa trama sem pressa. Em 2007 o jovem diretor fez o sensacional Medo da Verdade, suspense baseado na obra de Dennis Lehane que nem chegou aos cinemas do Brasil. Agora encontrou a mesma sorte com seu The Town. Resta que o público das locadoras descubra esse grande filme, subestimado. Um dos melhores de 2010.
Conta a história de Doug McRay (Affleck), ladrão de bancos que junto á sua gangue promove um verdadeiro arrastão pelos bancos de Boston. Desde muito jovem fazendo parte de um microcosmo criminal que envolve família e amigos de infância (como o contratante vivido pelo falecido Pete Postlethwaite e o parceiro no crime sanguinário e instável interpretado pelo ótimo Jeremy Renner), McRay foi escolhido pelo crime desde seus antepassados. Uma geração inteira de criminosos que não possuem outra escolha a não ser o assalto. Essa idéia familiar de contravenção é tão bem desenvolvida por Affleck quanto as cenas de ação, que explodem na hora certa: magistrais e cruas, lembrando Siegel, Mann, Friedkin.
Mas o estopim da virada para o jovem ladrão é a paixão por uma de suas vítimas, Claire (Rebecca Hall, belíssima atriz de Vicky Cristina Barcelona). Testemunha e traumatizada por um roubo no qual McRay e seus comparsas foram responsáveis, primeiro cabe ao ladrão monitorá-la e eventualmente matar a garota, caso ela revele saber demais sobre o ocorrido. Mas seguindo a grande tradição do filme policial americano, McRay se afeiçoa por Claire, o que muda todas as relações com a família criminosa, e o coloca em uma posição vulnerável para si mesmo e toda sua gangue. Com o FBI em seu encalço, simbolizado pelo obcecado agente Frawley (Jon Hamm), McRay precisa realizar seu último trabalho para fugir com Claire, abandonar a carreira criminosa e fugir de Boston para não voltar mais.
É um argumento batido, mas que nas mãos de Affleck parece revitalizado. Uma retomada do policial americano sério, no estilão anos 70, sem fazer concessões. O realizador devolve o cinema de ação ao berço das grandes tragédias familiares, retirando-o da vala comum dos duros-de-matar que infestam os multiplexes. Aqui é cinema adulto, comercial e ao mesmo tempo honesto, que reconhece a capacidade do público em apreciar uma boa trama sem pressa. Em 2007 o jovem diretor fez o sensacional Medo da Verdade, suspense baseado na obra de Dennis Lehane que nem chegou aos cinemas do Brasil. Agora encontrou a mesma sorte com seu The Town. Resta que o público das locadoras descubra esse grande filme, subestimado. Um dos melhores de 2010.
O Poder e a Lei (The Lincoln Lawyer, EUA, 2011, 120 min.)
Vira e mexe o cinema americano nos presenteia com um bom 'Filme de Advogado', fitas policiais com tramas rocambolescas em que quase sempre o herói se vê enrolado numa teia de contravenções e dilemas morais, precisando resolver, às custas do intelecto e de força bruta, casos criminosos de impossível resolução. Ou quase.
Felizmente, esse 'O Poder e a Lei' dirigido pelo novato Brad Furman, é de ótima safra. Adaptado do romance 'Advogado de Porta de Cadeia', best-seller de Michael Connely, conta a história de Mick Haller, advogado recém-divorciado, com pinta de bon vivant, que passa os dias em Beverly Hills com o seu motorista dirigindo um Ford Lincoln. Haller é um sujeito de moral dúbia, como a introdução do filme não demora a nos mostrar: fazer acordos com traficantes ou Hell Angels é tão natural para ele quanto tomar um uísque no bar, sempre acompanhado de seu escudeiro fiel, o investigador vivido por William H. Macy.
Eis que vem a Haller um playboy (Ryan Phillippe), acusado de espancar uma garota de programa. Ao mesmo tempo em que está incerto da inocência do rapaz, aceita o caso. E aí todas as ramificações dessa escolha, as reviravoltas muito bem construídas, são desenvolvidas em quase duas horas de ritmo ininterrupto de filme, um ótimo roteiro com uma agilidade que lembra os atuais seriados de tv, onde a peteca nunca pode cair sob pena de desinteresse do público.
E Matthew McConaughey está perfeito no papel. Passa a credibilidade de rua necessária ao personagem e ao mesmo tempo honra a tradição do advogado bêbado que busca a redenção moral imortalizado por Paul Newman em O Veredito. O elenco de coadjuvantes também ajuda: Marisa Tomei como a ex-esposa de Haller, Ryan Phillippe, William H. Macy, Josh Lucas, Bryan Cranston, Michael Peña...grandes 'character actors', trazendo veracidade e brilho para o filme, mesmo que em pequenas pontas.
Eu particularmente gosto muito dessa mistura genuinamente americana: o 'Film Noir', diluído numa versão mais 'Pulp' e criminal, somado ao prazer do subgênero que são os 'Filmes de Tribunal'. Pode não ser original, em muitos momentos resvala no clichê, mas não é isso que está em questão aqui. É toda uma subcultura de símbolos e significados que o diretor Brad Furman sabe explorar com maestria: o advogado em conflito moral, o playboy ricaço violento, a ex-esposa fragilizada, o promotor babaca, o amigo do herói bêbado e sempre com a razão...são inúmeros os signos que fazem de um filme desse tipo um deleite para os fãs da linhagem Noir. Eu sou um deles, então recomendo esse excelente filme.
Felizmente, esse 'O Poder e a Lei' dirigido pelo novato Brad Furman, é de ótima safra. Adaptado do romance 'Advogado de Porta de Cadeia', best-seller de Michael Connely, conta a história de Mick Haller, advogado recém-divorciado, com pinta de bon vivant, que passa os dias em Beverly Hills com o seu motorista dirigindo um Ford Lincoln. Haller é um sujeito de moral dúbia, como a introdução do filme não demora a nos mostrar: fazer acordos com traficantes ou Hell Angels é tão natural para ele quanto tomar um uísque no bar, sempre acompanhado de seu escudeiro fiel, o investigador vivido por William H. Macy.
Eis que vem a Haller um playboy (Ryan Phillippe), acusado de espancar uma garota de programa. Ao mesmo tempo em que está incerto da inocência do rapaz, aceita o caso. E aí todas as ramificações dessa escolha, as reviravoltas muito bem construídas, são desenvolvidas em quase duas horas de ritmo ininterrupto de filme, um ótimo roteiro com uma agilidade que lembra os atuais seriados de tv, onde a peteca nunca pode cair sob pena de desinteresse do público.
E Matthew McConaughey está perfeito no papel. Passa a credibilidade de rua necessária ao personagem e ao mesmo tempo honra a tradição do advogado bêbado que busca a redenção moral imortalizado por Paul Newman em O Veredito. O elenco de coadjuvantes também ajuda: Marisa Tomei como a ex-esposa de Haller, Ryan Phillippe, William H. Macy, Josh Lucas, Bryan Cranston, Michael Peña...grandes 'character actors', trazendo veracidade e brilho para o filme, mesmo que em pequenas pontas.
Eu particularmente gosto muito dessa mistura genuinamente americana: o 'Film Noir', diluído numa versão mais 'Pulp' e criminal, somado ao prazer do subgênero que são os 'Filmes de Tribunal'. Pode não ser original, em muitos momentos resvala no clichê, mas não é isso que está em questão aqui. É toda uma subcultura de símbolos e significados que o diretor Brad Furman sabe explorar com maestria: o advogado em conflito moral, o playboy ricaço violento, a ex-esposa fragilizada, o promotor babaca, o amigo do herói bêbado e sempre com a razão...são inúmeros os signos que fazem de um filme desse tipo um deleite para os fãs da linhagem Noir. Eu sou um deles, então recomendo esse excelente filme.
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