Arnold Schwarzenegger é um ícone que tentou o impossível: ser herói dentro e fora das telas. Foi ator, político, bodybuilder, imigrante bem sucedido na América. Foi tudo isso ao mesmo tempo, mas agora seu maior inimigo, todo mundo sabe, é a velhice.
Mas como o austríaco sempre foi rei em se autopromover, o veículo para seu 'comeback', esse 'O Último Desafio', foi alardeado como um retorno ao cinema á maneira de Clint Eastwood nos anos 80: um astro de ação envelhecendo com sabedoria, consciente de suas habilidades físicas já limitadas, mas com uma ironia e visão de mundo renovadas, experiente e maduro. Um lobo velho em pele de cordeiro.
Não deu certo. O filme foi universalmente rejeitado, o maior embaraço na carreira do astro. Custou 30 milhões e até agora não rendeu nem 15. Em outros tempos, 15 milhões seria a renda do primeiro dia de um filme de Schwarzenegger.
O revés de bilheteria é até compreensível pela campanha completamente errada do estúdio, que promoveu o filme com Arnold dividindo posters com Johnny Knoxville, o eterno 'Jackass', que poderia afastar uma boa parcela do público. Knoxville é veneno de bilheterias, e pior, não aparece no filme em mais de três cenas. Ainda por cima foi lançado em janeiro, época em que os cinemas ainda estão ocupados com os concorrentes do Oscar ou produções B de terror sem datas melhores para serem escoadas. Fosse lançado no final das férias lá nos EUA e aqui, como Stallone fez com sua cinessérie Os Mercenários, a fita poderia muito bem encontrar seu público.
Mas quanto ao filme, a rejeição é meio como bater em gato morto . Apesar de não se juntar ao núcleo duro de filmes de Arnold ( Exterminador do Futuro, Predador, Conan, True Lies), O Último Desafio é uma fita decentíssima de ação, muito melhor que a média do gênero nos últimos tempos. É dirigido por Jee- Woon Kim, o coreano malucão que fez os cults de nascença A Bittersweet Life, I Saw the Devil e The Good The Bad and The Weird. Felizmente, Jee-Woon entende as convenções necessárias num filme de Schwarzenegger e segue a fórmula de maneira estoica, adicionando aqui e ali bem vindos insights, dando uma cara mais moderna ao pacote todo.
Schwarzenegger envelheceu, óbvio, mas continua o mesmo, boa-praça e durão. Ainda tem presença icônica na tela, dispara grandes frases de efeito e de todos os heróis dos anos 80, é o que melhor sabe extrair humor de sua persona. Ele sabe que não é levado á sério e toma proveito disso, como sempre fez. Mas talvez seja pedir demais ao público moderno de multiplex entender quem é esse cara. Infelizmente seu público-alvo não entende a sutileza de Arnold estar se tornando um tipo Clint Eastwood, e o próprio ator, convenhamos, não tem o mesmo calibre de Clint para executar essa manobra, o que pode soar para alguns como pretensão demasiada.
A história é batida, mas funciona: Um criminoso audacioso (Eduardo Noriega, ator de Amenábar aqui se esbaldando na canastrice, como deve ser) engata uma fuga espetacular rumo á fronteira do México, e vai passar com seu Cartel a toda velocidade pela pequena cidade de Summertown Junction, onde vai enfrentar a resistência de um xerife experiente, Ray Owens (Schwarza) e seu pequeno staff, composto por um ex-herói de guerra (Rodrigo Santoro), dois oficiais inexperientes sedentos por ação (Jaimie Alexander e Zach Gilford), o alívio cômico inevitável (Johnny Knoxville quase estragando o filme) e Luís Guzmán, que faz o papel de.... Luís Guzmán, e se sai perfeitamente bem com isso.
Não sobra muito a dizer além de que as cenas de ação são de primeira, o filme tem ritmo e um final triunfal, digno de Schwarzenegger. Foi meio triste ver a sala quase vazia, porque nos tempos de Exterminador do Futuro 2 e True Lies, lembro bem dos cinemas de rua lotados e o público empolgado. Infelizmente em alguns casos as coisas mudam e não podemos fazer muito. Fiquei até o final da projeção, sozinho na sala, como tributo ao último grande herói de ação que me concedeu matinês tão saudosas, cheias de ação e aventura. Melhor sorte na próxima, Schwarza! Afinal, ele mesmo disse que sempre vai voltar.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
O Lado Bom da Vida ( Silver Linings Playbook, EUA, 2012, 121min. Dir. David. O. Russell)
Interessante assistir o novo filme do diretor Russell e constatar que ele aprofunda a abordagem familiar realizada desde The Fighter, aquele com Wahlberg, Christian Bale como um junkie de crack (papel que lhe rendeu Oscar) e mais uma família maluca de irlandeses na América. Tudo aquilo era muito bem encenado, exalava vida, tinha muito coração, acima da média. O cinema americano carece desse tipo de estudo de personagem que temos aqui nesse O Lado Bom da Vida, um filme que apesar das indicações para prêmios e as discussões sobre ser subestimado ou superestimado, felizmente vai passar no teste do tempo e quem sabe vai se tornar um pequeno clássico americano.
O rapaz bipolar e esquizofrênico que no passado perdeu mulher devido a uma traição e um desenlace trágico (não vou estragar as surpresas) volta para casa após um tempo internado e encontra carinho nos laços familiares e de amizade. A mãe passiva e amorosa. O pai fanático por futebol americano, impulsivo e maníaco como o filho. O amigo à beira de um ataque de nervos num casamento fora dos eixos.
E a adorável garota bipolar também, com um passado tenebroso, de volta ao lar dos pais para tentar reconstruir, ou não construir mais nada errado após um grande fracasso amoroso. Pat e Tiffany são um desses casais 20 tortos que o cinema americano vira e mexe nos presenteia, um deleite de ver a comparação de diferenças, de cicatrizes, a química certeira. Bradley Cooper e Jennifer Lawrence estão perfeitos, críveis em suas fragilidades e ao mesmo tempo exalando carisma de estrela que ambos tem de sobra.
E que surpresa é ver De Niro finalmente desligando o piloto automático e entregando uma atuação cheia de emoção, como nos tempos de Scorsese. Como o pai errante, bookmaker, que só quer fazer e ver o bem do filho, ele grita, chora, briga e tem seu grande papel desde Cassino, em 95. Vale mencionar a grande atriz australiana Jackie Weaver, de Animal Kingdom, aqui como a mãe carinhosa e que fica entre o pai e filho sem saber bem qual rumo tomar.
Francamente, todo o elenco de apoio, o psicólogo, o melhor amigo, o policial, o amigo do pai também apostador e fanático por jogo, o irmão...agora não me vem os nomes, mas toda essa gente misturada á esses quatro que eu citei formam um elenco afinado e bem dirigido como há muito tempo eu não via. Essa habilidade do diretor em puxar 'verdade' do seu elenco é o triunfo desse filme. Tudo é muito pessoal, muito honesto. Apesar de lá pelas tantas tudo precisar ser amarrado (e aí entra a convenção que nos lembra que estamos em um filme comercial e blábláblá), não chega a afetar o conjunto e revela em Russell uma habilidade insuspeita de canalizar um Frank Capra na direção, coisa rara nos dias de hoje.
Um mal intencionado poderia ver nessa fita um amontoado de clichês, mas fiquem atentos: aqui temos uma obra de cara limpa, carinhosa e honesta com seus personagens, sem o cinismo que impregna dez entre dez fitas dramáticas ou românticas que assistimos hoje em dia. Esse é um filme cujas habilidades do diretor e elenco só encontram par no cinema americano dos anos 70. Não é pouco.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Django Livre (Django Unchained, Dir. Quentin Tarantino, EUA, 2012, 164 min.)
Não é fácil descrever o cinema de Quentin Tarantino conforme ele evolui de filme para filme. A cada obra o salto ornamental em termos de estilo e estrutura é tão grande que fica difícil fazer uma crítica completa após apenas uma 'assistida' de Django Livre, sua nova obra-prima. Os pontos básicos, o que me chamou mais a atenção numa primeira visita foi:
*Christoph Waltz: O sensacional ator austríaco emplaca outro tipo único na galeria tarantiniana e se confirma como mais um talismã do diretor, nos moldes de Sam Jackson em Pulp Fiction e Jackie Brown e Uma Thurman em Pulp e Kill Bill. Na pele do caçador de recompensas e dentista-caixeiro viajante King Schultz, Waltz rouba cada cena em que aparece e declama os diálogos de Tarantino com a voracidade que Branagh faria Shakespeare. Ainda sofrendo a comparação com o inesquecível Coronel Landa de Bastardos Inglórios, ele ignora esse fato e praticamente obriga cada parceiro em cena ( Jamie Foxx, Kerry Washington, Leo DiCaprio, Sam Jackson, todos ótimos) a elevar o nível de atuação em cada sequência em que ele está. Ele é o coração de Django Livre, e sua química com Jamie Foxx é o fator que ganha a simpatia da audiência durante o filme.
*Roteiro Linear: Pela primeira vez em sua obra, Tarantino conta sua história de maneira linear e portanto climática. Respeitando os cânones do cinema de western, ele vai construindo uma história de vingança que lentamente vai acelerando até chegar num clímax monumental, talvez o maior tiroteio da história do cinema desde The Killer .(John Woo, 1989) Enquanto costura até o cume do filme, a paciência do espectador é sempre recompensada por sequências de suspense eficientes e diálogos afiados. Confirma-se aqui que na sua revisão dos gêneros cinematográficos, a grande proposta de sua obra, Tarantino sabe o que deve subverter e o que deve manter intacto: agora não é hora de avanços e deslocamentos temporais, de loucuras no roteiro. Django Livre é um spaghetti western clássico, contado de maneira clássica, mas com toda a subversão de conteúdo que caracteriza a obra do cineasta.
*Violência absurda, bem utilizada e estilizada: Ao narrar a história de um escravo recém libertado por um caçador de recompensas e que juntos vão atrás de uma mulher refém do maléfico proprietário de terras, o realizador ambienta sua obra na América pré-Guerra Civil, o Texas no auge do racismo, da escravidão. Talvez a época mais violenta daquele país; um momento na história que a consciência coletiva faz questão de esquecer até hoje. Tarantino mexe nesse vespeiro com sua finesse habitual: testemunhamos de camarote o show de horrores perpetrados contra os negros de maneira explícita, gráfica. Um ataque de cães, uma cela solitária chamada 'hot box', o açoitamento, a castração, lutas de mandingos...nada escapa ao olhar punitivo de Tarantino. É como se ele jogasse de volta na cara da América todo o horror e violência brutal com seu gosto habitual pelo humor negro, mas aqui não: o sentimento que brota da violência infligida contra o ser humano em 'Django..' só causa asco e alimenta a torcida para a virada do escravo caçador de recompensas no final. Pela primeira vez, Tarantino usa a violência com uma justificativa muito nobre: manipular o público e dissecar o show de horror que foi a escravidão na América. Já a violência estilizada dos inúmeros tiroteios tem uma raíz mais cinematográfica: o sangue que espirra com intensidade maior até do que em Kill Bill vem em linha direta de Peckinpah em The Wild Bunch, Scarface de De Palma e principalmente John Woo em The Killer. Ao mesmo tempo em que reconhece a intensidade histórica e a seriedade do contexto, Tarantino sempre nos lembra seu mantra primordial: o cinema vence, sem concessões.
*Uso épico da trilha sonora: assim como em seus filmes anteriores, o diretor faz uso magistral das canções da trilha sonora para criar momentos únicos. Aqui não é exceção. Tarantino é o diretor moderno que melhor entende e faz uso da música em filmes. A diferença é que com o tempo ele está sabendo dosar melhor ainda quando e onde inserir música e ampliar o impacto emocional das cenas. Assim como um Scorsese nos seus melhores momentos, Tarantino não cria clipes dentro do seu filme: ele torna as cenas épicas ainda mais intensas através da substituição da palavra pela canção, e assim, junto com a edição certeira, consegue tornar memoráveis sequências que nas mãos de outros diretores seriam apenas transição ou montagens dentro do filme. Ele sabe que música aliada a imagem é a forma mais potente de cinema, lição aprendida com Sergio Leone. Bingo.
*Um criador já autoconsciente do seu estilo: Cinéfilo atento, pode reparar: após Kill Bill, ficou claro que Quentin Tarantino vislumbrou e assimilou um estilo próprio de direção. Em outras palavras, desde então o homem está apaixonado pela sua habilidade de artesão e criador de regras em seu próprio 'tarantinoverso'. Em Pulp Fiction e Cães de Aluguel ele burilou uma forma de cinema que ele mesmo não reconhecia, pelo frescor da realização e pela juventude. Em Jackie Brown ele estranhou um pouco e pareceu indeciso sobre qual direção seguir, e o resultado foi mais uma meditação sobre cinema policial do que um filme policial em si. Mas de Kill Bill em diante, tomou as rédeas do seu estilo de direção e consistentemente, filme após filme, reafirma sua simbologia própria e recria situações citando outras já suas. O tema da vingança e suas variações permeia sua obra desde Kill Bill, mas os desenlaces sempre são inesperados e diferentes. Ao mesmo tempo, já é consciente da familiaridade do público com sua obra e usa esse conhecimento para subverter e perverter as criações vindouras. Se no início de carreira tudo remetia a outros filmes e outras simbologias da cultura pop, agora Tarantino sabe que já é parte dessa cultura e pode reconstruir signos e símbolos usando sua própria obra como ponto de partida. Nesse sentido, o Django de Jamie Foxx se une à 'Noiva' Beatrixx Kiddo, e ao Tenente Aldo Raine, numa linhagem de personagens de gênero: seja Western, Kung-Fu ou Guerra, todos são filhos legítimos das resoluções cinematográficas de Tarantino.
*Cinema ainda importa: Toda vez que Quentin Tarantino vai para trás das câmeras, ele parece nos lembrar a festa que é ir ver filmes, a alegria pura de se fazer cinema. Esse é um realizador que nasceu no berço do cinema popular, os cinemas de rua, drive-ins e as videolocadoras, os intermináveis 'corujões' da vida, onde pôde presenciar todo tipo de cinema sem distinção e cultivar o melhor e o pior da sétima arte sem preconceito algum. Cada filme seu é um ritual de celebração do poder do cinema, do fato que seja em um dvd ou bluray, mas principalmente numa sala de cinema, ainda é 'o' filme o responsável pela formação de novos cinéfilos, neófitos interessados ou simplesmente apreciadores fiéis de uma sala escura com uma tela enorme, som potente, e uma boa história sendo contada. 'Django Livre' é mais uma tradução em celulóide dessa linha de raciocínio, e é por esse amor ao cinema que Tarantino deve ser venerado. Ele sabe que isso aqui é muito mais que business, uma coisa de sangue mesmo. O último 'believer' do cinema americano, um verdadeiro herói da resistência. Um artista comprometido com sua arte, genial e irresponsável, como deve ser. Em sua mais nova extravagância, sua magnum opus. Bravo!
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Os 10 Melhores Filmes de 2012
...e eis que esse escriba que vos fala retorna para mais uma batelada de comentários sobre os filmes que mais me marcaram em 2012...felizmente foi um ano que cinematograficamente começou estranho mas que depois e principalmente agora nos últimos meses se mostrou pródigo em revelar novas obras e trazer o retorno de tarimbados cineastas. Nem tudo foram rosas ( a decepção de Prometheus, o fraco Taken 2), mas os acertos superaram os erros e agora só nos resta aguardar 2013 com a esperança de filmes melhores, do cinema como um todo melhor. Enjoy folks! (e maneirem na champagne ,ok )
10 - Shame (Shame, Dir. Steve McQueen UK, 2011, 101 min.)
Lançado no exterior em 2011, e chegando ao Brasil no início deste ano para a temporada de premiações, 'Shame' foi um filme que pouca gente viu, mas cujo impacto perdura na mente por muito tempo após a exibição. Numa tacada só, o diretor Steve McQueen realizou um drama sobre os desvios da carne e alma que separam dois irmãos (Michael Fassbender e Carey Mulligan), um estudo de personagem como há muito não se via, e uma observação afinada sobre a camada de frivolidade existente nas relações sociais modernas, que podem levar à loucura qualquer pessoa com um desvio para a solidão. Um filme difícil e fascinante, honesto demais para ser ignorado.
9- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge ( Batman The Dark Knight Rises, Dir. Christopher Nolan, EUA, 2012, 165 min.)
Aqui entra a polêmica. Todo mundo sabe que um blockbuster desse porte não pertence completamente a um diretor. Esse é um filme feito sob encomenda pela DC Comics para valorizar e reposicionar no mercado seu bem comercial mais rentável. Mas não há como negar que entre erros (o segundo ato do filme, confuso) e acertos ( o acerto no tom e na escolha da mulher gato, o clima épico, o final estarrecedor), Christopher Nolan conseguiu enfim colocar na tela sua visão, de maneira pouco imaculada até, concreta e inesperadamente. Mas fica o pesar: as infinitas pontas soltas vão ficar inevitavelmente abandonadas, e resta a esperança de que no futuro, a Warner entenda que o personagem Batman deve prevalecer sobre a visão de qualquer 'autor' que deseje mexer na biografia do personagem. Mesmo irregular, pela intensidade e pela coragem, um grande filme.
8 - Moonrise Kingdom (Moonrise Kingdom, Dir. Wes Anderson, EUA, 2012, 94 min.)
Que prazer é ver o retorno triunfal de Wes Anderson à boa forma do clássico 'Os Excêntricos Tenembaums': metódico, confiante no poder da mise-en-scene e com uma carga emocional imbatível. Isso é 'Moonrise Kingdom', uma fábula sobre romance adolescente que joga na cara dos adultos de maneira sutil tudo aquilo que a gente sabe: o amor é lindo, é complicado, e é cheio de ramificações que podem detonar uma série de mudanças à volta de um jovem casal apaixonado. Ainda mais se forem crianças rodeadas por adultos cheios de segredos a esconder. Um roteiro perfeito, com direção acertada de Anderson e grandes atuações de Bruce Willis e Ed Norton.
7 - Holy Motors (Holy Motors, Dir. Leos Carax, FRA, 2012, 115 min.)
A idéia básica desse delírio surreal do diretor Leos Carax é retorcer a percepção de atuação, de simulação de realidade, das possibilidades vividas por um ator na criação e no destino final de uma dezena de personagens. É uma proposta radical levada as últimas consequências pelo diretor francês e o estupendo ator Denis Lavant, que durante uma noite em Paris sai à caça do destino de nove personagens, todos interpretados por ele com gusto. Horror, drama, erótico, policial, suspense: na pele de cada personagem, ele vive e morre um gênero diferente, e cabe a platéia, emocionada, abandonar qualquer senso de realidade para abraçar essa homenagem desbragada ao poder do cinema. Fica a mensagem: o cinema é a sua própria realidade em si, com um conjunto de regras determinadas por roteiro, direção, e edição. São os grandes atores que todos os dias insistem em viver e morrer na pele de diferentes histórias e personagens.
6 - O Homem da Máfia (Killing Them Softly, Dir. Andrew Dominik, EUA, 2012, 97 min.)
Há muito tempo, talvez desde o final do seriado Família Soprano, uma obra sobre o crime organizado americano não realizava uma atualização tão necessária sobre o tema como 'O Homem da Máfia'. É uma fita crua, quase sem cor, arrastada, cínica e sem a menor disposição de agradar ao espectador que pretende ver o habitual intercurso de ação e matança do básico cinema de crime B americano. Aqui o tema é decadência moral, social, salpicada com violência extrema e comentário político. Tanto os políticos como os assassinos desse filme entendem a América moderna como um negócio desprovido de alegria: o que vale é a eficiência e o lucro. Toda a excitação se foi, como no Goodfellas de Scorsese ou o glamour do Chefão de Coppola. Esse é um filme triste sobre a decadência moral da América e porque não, dos códigos de conduta que regem tanto o crime quanto o senado americano. Na visão do diretor Dominik, que filma as cenas de violência como um balé de Peckinpah, se está quebrado, não conserte: deixa sangrar. Grande filme.
5 - As Vantagens de ser Invisível (The Perks of Being A Wallflower, Dir. Stephen Chbosky, EUA, 2012, 102 min.)
Há muito tempo a angústia adolescente não rendia um filme tão emocional, tão sincero e orgânico, perfeito na temática e execução. Herdando o manto de John Hugues e adaptando seu próprio romance, Stephen Chbosky conta a velha história dos desajustados do ensino médio americano que não encontrando respaldo em nenhum círculo social, encontram amparo e ressonância no seu próprio mundinho particular. O diferencial aqui são as soluções inteligentes, a trilha sonora espetacular ( espera até ouvir 'Heroes' de Bowie em dois momentos sublimes) e o ótimo elenco: o protagonista Logan Lerman tem grande futuro e deveria ser o próximo Homem-Aranha (não o esquisito e maneirista Andrew Garfield), Emma Watson dizendo adeus à Harry Potter e cia., e o sensacional Ezra Miller ( o garoto problema de We Need To Talk About Kevin, aqui em grande momento). Um filme pequeno e com muito a dizer, que vale a pena ser descoberto.
4 - As Aventuras de PI (The Life of PI, Dir. Ang Lee, EUA/China, 2012, 127 min.)
Esse é um filme inclassificável: disfarçado de aventura juvenil despretensiosa que orgulharia Dickens, o diretor Ang Lee adapta o romance de Yann Martel sobre um garoto que perde a família num terrível acidente de navio em alto-mar e fica abandonado à própria sorte numa canoa junto com um tigre. A premissa pode parecer incompleta, desinteressante, ou surrealista demais...mas da minha parte, é apenas isso que eu desejo lhe contar: vá ver esse filmaço sabendo o mínimo possível, porque as surpresas são tantas e o visual tão estupendo que palavras são desnecessárias. Uma obra para se experimentar e vivenciar dentro da sala de exibição, e quem sabe, sair com a fé renovada em um cinema tecnicamente perfeito e cheio de emoção.
3 - Os Vingadores (Marvel's The Avengers, Dir. Joss Whedon, EUA, 2012, 142min.)
Há muito o que se dizer sobre Joss Whedon: o meganerd, o criador de séries e escritor de quadrinhos criativo, o cineasta que com seu 'Serenity' se mostrava promissor. Mas nada, nada mesmo poderia prever o gigantesco acerto desse gênio da cultura popular em 'Os Vingadores', o filme que consolida o plano de dominação mundial da Marvel e que de agora em diante, vira referência para todo e qualquer projeto complexo envolvendo um grupo de heróis (não a toa, a DC já se movimenta para o seu Justice League em 2015 visando o mesmo êxito). Mais do que isso, Whedon entende do gênero e consegue do início ao fim misturar ação incendiária (a sequência final em que o exército de Loki, os Chitauri, invadem Nova York e se digladiam com os Vingadores, dura quase meia hora e vai ser difícil de ser superada), drama e humor em doses generosas ( Downey Jr. como o Homem de Ferro sempre hilário e o Hulk de Mark Ruffalo roubam a cena), e criar um gancho insuportável de aguentar até a inevitável continuação vindoura. Honrando o manto de Jack Kirby e Stan Lee e ensinando como se faz um filme de super-heróis, aqui está a vitória final da Marvel nos cinemas: um filme de apelo universal que dialoga com o espectador ocasional e o fã, sem subestimar nenhum dos dois.
2 - Amor (Amour, Dir. Michael Haneke, AUS/FRA/GER, 2012, 127 min.)
Utilizando um par de atores extrordinários ( Jean-Louis Trintignant e Emmanuele Riva), o realizador austríaco Michael Haneke atinge o auge de suas habilidades como roteirista e diretor ao contar a história de amor definitiva: um casal no ato final de suas vidas, confrontando a morte e o fim de tudo mais belo que foi cultivado por toda uma vida de amor intocável, perfeito. É um estudo profundo dos limites da humanidade, da paixão, do quão longe é capaz de se ir atrás da alma que se ama. Um filme devastador, que com certeza não verei de novo. O melhor pedaço de cinema do ano, com direção, atuação, e roteiro estupendos. Definitivamente o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, mas muito mais do que isso: uma obra-prima enxuta de orgulhar Kubrick, uma história de amor real inesquecível.
1 - 007 - Operação Skyfall ( Skyfall, Dir. Sam Mendes, UK/EUA, 2012, 143 min.)
Mais do que a ressurreição artística de James Bond após o irregular 'Quantum of Solace' de 2008, 'Skyfall' é o cinema comercial no auge da intenção de entreter com classe, realizado com afinco de artesão. O grande diretor britânico Sam Mendes ( dos ótimos Beleza Americana, Estrada para a Perdição, Revolutionary Road entre outros) entregou o filme definitivo de 007 daqui em diante. Filmado com gana de filme de arte, mas com a audácia e a destreza dos grandes cineastas de ação, é uma fita destinada a renovar o personagem vivido com maestria novamente por Daniel Craig. Mas ao mesmo tempo em que faz Bond evoluir e se tornar pela primeira vez um personagem multifacetado (num processo já iniciado no também ótimo Cassino Royale de 2006), também olha para o passado e relembra à platéia acostumada a uma dieta de Bournes e Batmans o que faz de James Bond afinal, James Bond. Aqui tudo funciona: o ritmo é perfeito, o roteiro trata de modernizar as ameaças ao herói ( grande momento de Bardem como o vilão) e finalmente a chefe 'M', vivida pela dama do teatro inglês Judi Dench, ganha mais espaço e interfere diretamente na trama. Um filme de ação perfeito, um filme de Bond perfeito, e uma prova de que o cinema comercial pode ser sim divertido sem abrir mão da inteligência e do bom gosto. Um comentário desse sobre um filme de James Bond? 2012 foi um ano atípico mesmo....
E outros ótimos filmes, que vale lembrar : The Grey, Elefante Branco, The Raid-Redemption, Millenium - The Girl With The Dragon Tattoo, Looper, Os Infratores, Jeff Who Lives At Home, Innkeepers, Ted, 21 Jump St., Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Os Candidatos, Cabin in The Woods, The Man With The Iron Fists, The Expendables 2, Rust and Bone.
10 - Shame (Shame, Dir. Steve McQueen UK, 2011, 101 min.)
Lançado no exterior em 2011, e chegando ao Brasil no início deste ano para a temporada de premiações, 'Shame' foi um filme que pouca gente viu, mas cujo impacto perdura na mente por muito tempo após a exibição. Numa tacada só, o diretor Steve McQueen realizou um drama sobre os desvios da carne e alma que separam dois irmãos (Michael Fassbender e Carey Mulligan), um estudo de personagem como há muito não se via, e uma observação afinada sobre a camada de frivolidade existente nas relações sociais modernas, que podem levar à loucura qualquer pessoa com um desvio para a solidão. Um filme difícil e fascinante, honesto demais para ser ignorado.
9- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge ( Batman The Dark Knight Rises, Dir. Christopher Nolan, EUA, 2012, 165 min.)
Aqui entra a polêmica. Todo mundo sabe que um blockbuster desse porte não pertence completamente a um diretor. Esse é um filme feito sob encomenda pela DC Comics para valorizar e reposicionar no mercado seu bem comercial mais rentável. Mas não há como negar que entre erros (o segundo ato do filme, confuso) e acertos ( o acerto no tom e na escolha da mulher gato, o clima épico, o final estarrecedor), Christopher Nolan conseguiu enfim colocar na tela sua visão, de maneira pouco imaculada até, concreta e inesperadamente. Mas fica o pesar: as infinitas pontas soltas vão ficar inevitavelmente abandonadas, e resta a esperança de que no futuro, a Warner entenda que o personagem Batman deve prevalecer sobre a visão de qualquer 'autor' que deseje mexer na biografia do personagem. Mesmo irregular, pela intensidade e pela coragem, um grande filme.
Que prazer é ver o retorno triunfal de Wes Anderson à boa forma do clássico 'Os Excêntricos Tenembaums': metódico, confiante no poder da mise-en-scene e com uma carga emocional imbatível. Isso é 'Moonrise Kingdom', uma fábula sobre romance adolescente que joga na cara dos adultos de maneira sutil tudo aquilo que a gente sabe: o amor é lindo, é complicado, e é cheio de ramificações que podem detonar uma série de mudanças à volta de um jovem casal apaixonado. Ainda mais se forem crianças rodeadas por adultos cheios de segredos a esconder. Um roteiro perfeito, com direção acertada de Anderson e grandes atuações de Bruce Willis e Ed Norton.
7 - Holy Motors (Holy Motors, Dir. Leos Carax, FRA, 2012, 115 min.)
A idéia básica desse delírio surreal do diretor Leos Carax é retorcer a percepção de atuação, de simulação de realidade, das possibilidades vividas por um ator na criação e no destino final de uma dezena de personagens. É uma proposta radical levada as últimas consequências pelo diretor francês e o estupendo ator Denis Lavant, que durante uma noite em Paris sai à caça do destino de nove personagens, todos interpretados por ele com gusto. Horror, drama, erótico, policial, suspense: na pele de cada personagem, ele vive e morre um gênero diferente, e cabe a platéia, emocionada, abandonar qualquer senso de realidade para abraçar essa homenagem desbragada ao poder do cinema. Fica a mensagem: o cinema é a sua própria realidade em si, com um conjunto de regras determinadas por roteiro, direção, e edição. São os grandes atores que todos os dias insistem em viver e morrer na pele de diferentes histórias e personagens.
6 - O Homem da Máfia (Killing Them Softly, Dir. Andrew Dominik, EUA, 2012, 97 min.)
Há muito tempo, talvez desde o final do seriado Família Soprano, uma obra sobre o crime organizado americano não realizava uma atualização tão necessária sobre o tema como 'O Homem da Máfia'. É uma fita crua, quase sem cor, arrastada, cínica e sem a menor disposição de agradar ao espectador que pretende ver o habitual intercurso de ação e matança do básico cinema de crime B americano. Aqui o tema é decadência moral, social, salpicada com violência extrema e comentário político. Tanto os políticos como os assassinos desse filme entendem a América moderna como um negócio desprovido de alegria: o que vale é a eficiência e o lucro. Toda a excitação se foi, como no Goodfellas de Scorsese ou o glamour do Chefão de Coppola. Esse é um filme triste sobre a decadência moral da América e porque não, dos códigos de conduta que regem tanto o crime quanto o senado americano. Na visão do diretor Dominik, que filma as cenas de violência como um balé de Peckinpah, se está quebrado, não conserte: deixa sangrar. Grande filme.
5 - As Vantagens de ser Invisível (The Perks of Being A Wallflower, Dir. Stephen Chbosky, EUA, 2012, 102 min.)
Há muito tempo a angústia adolescente não rendia um filme tão emocional, tão sincero e orgânico, perfeito na temática e execução. Herdando o manto de John Hugues e adaptando seu próprio romance, Stephen Chbosky conta a velha história dos desajustados do ensino médio americano que não encontrando respaldo em nenhum círculo social, encontram amparo e ressonância no seu próprio mundinho particular. O diferencial aqui são as soluções inteligentes, a trilha sonora espetacular ( espera até ouvir 'Heroes' de Bowie em dois momentos sublimes) e o ótimo elenco: o protagonista Logan Lerman tem grande futuro e deveria ser o próximo Homem-Aranha (não o esquisito e maneirista Andrew Garfield), Emma Watson dizendo adeus à Harry Potter e cia., e o sensacional Ezra Miller ( o garoto problema de We Need To Talk About Kevin, aqui em grande momento). Um filme pequeno e com muito a dizer, que vale a pena ser descoberto.
4 - As Aventuras de PI (The Life of PI, Dir. Ang Lee, EUA/China, 2012, 127 min.)
Esse é um filme inclassificável: disfarçado de aventura juvenil despretensiosa que orgulharia Dickens, o diretor Ang Lee adapta o romance de Yann Martel sobre um garoto que perde a família num terrível acidente de navio em alto-mar e fica abandonado à própria sorte numa canoa junto com um tigre. A premissa pode parecer incompleta, desinteressante, ou surrealista demais...mas da minha parte, é apenas isso que eu desejo lhe contar: vá ver esse filmaço sabendo o mínimo possível, porque as surpresas são tantas e o visual tão estupendo que palavras são desnecessárias. Uma obra para se experimentar e vivenciar dentro da sala de exibição, e quem sabe, sair com a fé renovada em um cinema tecnicamente perfeito e cheio de emoção.
3 - Os Vingadores (Marvel's The Avengers, Dir. Joss Whedon, EUA, 2012, 142min.)
Há muito o que se dizer sobre Joss Whedon: o meganerd, o criador de séries e escritor de quadrinhos criativo, o cineasta que com seu 'Serenity' se mostrava promissor. Mas nada, nada mesmo poderia prever o gigantesco acerto desse gênio da cultura popular em 'Os Vingadores', o filme que consolida o plano de dominação mundial da Marvel e que de agora em diante, vira referência para todo e qualquer projeto complexo envolvendo um grupo de heróis (não a toa, a DC já se movimenta para o seu Justice League em 2015 visando o mesmo êxito). Mais do que isso, Whedon entende do gênero e consegue do início ao fim misturar ação incendiária (a sequência final em que o exército de Loki, os Chitauri, invadem Nova York e se digladiam com os Vingadores, dura quase meia hora e vai ser difícil de ser superada), drama e humor em doses generosas ( Downey Jr. como o Homem de Ferro sempre hilário e o Hulk de Mark Ruffalo roubam a cena), e criar um gancho insuportável de aguentar até a inevitável continuação vindoura. Honrando o manto de Jack Kirby e Stan Lee e ensinando como se faz um filme de super-heróis, aqui está a vitória final da Marvel nos cinemas: um filme de apelo universal que dialoga com o espectador ocasional e o fã, sem subestimar nenhum dos dois.
2 - Amor (Amour, Dir. Michael Haneke, AUS/FRA/GER, 2012, 127 min.)
Utilizando um par de atores extrordinários ( Jean-Louis Trintignant e Emmanuele Riva), o realizador austríaco Michael Haneke atinge o auge de suas habilidades como roteirista e diretor ao contar a história de amor definitiva: um casal no ato final de suas vidas, confrontando a morte e o fim de tudo mais belo que foi cultivado por toda uma vida de amor intocável, perfeito. É um estudo profundo dos limites da humanidade, da paixão, do quão longe é capaz de se ir atrás da alma que se ama. Um filme devastador, que com certeza não verei de novo. O melhor pedaço de cinema do ano, com direção, atuação, e roteiro estupendos. Definitivamente o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013, mas muito mais do que isso: uma obra-prima enxuta de orgulhar Kubrick, uma história de amor real inesquecível.
1 - 007 - Operação Skyfall ( Skyfall, Dir. Sam Mendes, UK/EUA, 2012, 143 min.)
Mais do que a ressurreição artística de James Bond após o irregular 'Quantum of Solace' de 2008, 'Skyfall' é o cinema comercial no auge da intenção de entreter com classe, realizado com afinco de artesão. O grande diretor britânico Sam Mendes ( dos ótimos Beleza Americana, Estrada para a Perdição, Revolutionary Road entre outros) entregou o filme definitivo de 007 daqui em diante. Filmado com gana de filme de arte, mas com a audácia e a destreza dos grandes cineastas de ação, é uma fita destinada a renovar o personagem vivido com maestria novamente por Daniel Craig. Mas ao mesmo tempo em que faz Bond evoluir e se tornar pela primeira vez um personagem multifacetado (num processo já iniciado no também ótimo Cassino Royale de 2006), também olha para o passado e relembra à platéia acostumada a uma dieta de Bournes e Batmans o que faz de James Bond afinal, James Bond. Aqui tudo funciona: o ritmo é perfeito, o roteiro trata de modernizar as ameaças ao herói ( grande momento de Bardem como o vilão) e finalmente a chefe 'M', vivida pela dama do teatro inglês Judi Dench, ganha mais espaço e interfere diretamente na trama. Um filme de ação perfeito, um filme de Bond perfeito, e uma prova de que o cinema comercial pode ser sim divertido sem abrir mão da inteligência e do bom gosto. Um comentário desse sobre um filme de James Bond? 2012 foi um ano atípico mesmo....
E outros ótimos filmes, que vale lembrar : The Grey, Elefante Branco, The Raid-Redemption, Millenium - The Girl With The Dragon Tattoo, Looper, Os Infratores, Jeff Who Lives At Home, Innkeepers, Ted, 21 Jump St., Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, Os Candidatos, Cabin in The Woods, The Man With The Iron Fists, The Expendables 2, Rust and Bone.
sábado, 31 de dezembro de 2011
10 Melhores Filmes de 2011
Eis que 2011 chega ao fim e felizmente, o cinema não desapontou. Pode ter sido um ano meio estranho, em que a concentração de bons filmes ficou mais restrita aos últimos meses do ano. Mas não dá para reclamar de um ano que teve Woody Allen, Almodóvar e Scorsese em grande forma além da revelação do talento Nicolas Winding Refn, entre outros. Na seara nacional, Selton Mello e seu O Palhaço dominou as bilheterias e o gosto da crítica, provando que cinema comercial pode sim rimar com qualidade artística. Vale lembrar que esta é uma lista submetida a critérios puramente subjetivos, portanto quem discordar pode e deve fazer valer a sua voz. Provavelmente eu esqueci algum filme muito bom, supervalorizei outro que não deveria e deixei de comentar no blog vários deles. Mas a vida é assim mesmo, folks. Durante a viagem vamos fazendo os consertos necessários, sempre em movimento. Até 2012. Não bebam muito! Isso foi uma piada.
10 - SUBMARINE (Dir. Richard Ayoade, 100 min. UK, 2011)
Poucas vezes uma manjada história sobre os ritos de passagem da adolescência foi contada com tamanha segurança por um diretor estreante. Abusando de um visual delirante, texto afiado e ótimas atuações, Richard Ayoade fez o filme definitivo sobre paixão adolescente. É um filme sobre aquela época da vida em que os pais não te entendem, a garota que você ama te faz de bobo e o drama é a única saída para tanta melancolia. A gente cresce e descobre que foi tudo bobagem, mas filmes desse tipo ajudam-nos a lembrar que sim, às vezes é muito bom ser feliz em ser infeliz.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/07/submarine-submarine-uk-2011-86-min.html
9 - CONTRA O TEMPO (Dir. Duncan Jones, USA, 2011, 95 min.)
E sem dúvida a grande ficção de 2011 foi esse Contra O Tempo, um delírio de ação que envolve heroísmo, viagem no tempo e transferência de consciência(!) numa embalagem compacta, pouco mais de noventa minutos brilhantemente orquestrados pelo diretor Duncan Jones (que em 2009 já havia nos presenteado com a pérola Lunar). Lançado no começo do ano e esnobado por parte da crítica 'inteligente', é o tipo de filme que com o tempo só vai aumentando o séquito de seguidores, e entra na rara seara povoada por filmaços que marcaram época, como Robocop, Velocidade Máxima e tantos outros que provam o que nós aqui já sabíamos há tempos: Ficção científica e ação são gêneros espetaculares, basta um realizador com a boa vontade de assumir os clichês e subvertê-los, transformando um prato requentado em novidade.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/06/contra-o-tempo-source-code-eua-2011-84.html
8 - A ÁRVORE DA VIDA (Dir. Terrence Malick, EUA, 2011, 130min.)
Quem é Terence Malick? Um recluso, um meticuloso, um pretensioso, um pseudo-filósofo metido a cineasta? Desde seu lançamento em Cannes em maio passado, obra e criador foram dissecados e discutidos por crítica e público enfurecidamente: muito bocejavam dentro do cinema, enquanto outros deliravam com a habilidade narrativa de Malick, que construiu um conto de beleza estridente sobre tudo o que nos une e nos separa, física e espiritualmente. Se cinema relevante é aquele que faz você se enfurecer, chorar, brigar e se emocionar, podem dormir tranquilos: A Árvore da Vida é exatamente esse tipo de filme, uma obra construída para dialogar com o 'repertório' do espectador, que deve compartilhar seu ideário de crenças com as imagens que vão desfilando na tela. Tudo que Malick pede é que as pessoas entrem na sala de exibição sem medo, sem preconceito. O impacto do seu filme é destruidor. Grande obra.
7 - O PALHAÇO (Dir. Selton Mello, BRA, 2011, 85 min.)
E quem diria que após seu tributo à Cassavetes, Feliz Natal, Selton Mello mostraria à que realmente veio com esse drama cômico espetacular, um filme de coração, uma ode aos artesões do oficio espalhados por todo o país, pessoas anônimas que dedicam suas vidas ao próximo de maneira quase suicida e sem moralismos. A figura do palhaço em crise é a metáfora mais acertada do artista em busca do seu 'mojo', aquela faísca, a paixão não-descoberta que assombra a alma e faz enlouquecer, uma busca sem fim pela risada sincera, honesta. Algo em falta nos dias que corre, fato. Mas filmes como esse facilitam o caminho...
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/11/o-palhaco-idem-brasil-2011-88-min.html
6 - MEIA-NOITE EM PARIS (Dir. Woody Allen, EUA/SPA, 2011, 92 min.)
Ponto pacífico: Woody Allen não 'voltou', não 'ressucitou', nunca 'voltou à velha forma' ou qualquer baboseira do tipo. É claro que Meia-Noite em Paris é um filme espetacular, que traz seus velhos temas de volta à baila: nostalgia, arte, relacionamentos e neuroses diárias. Mas quem assiste seus filmes anuais (sim, é um por ano, religiosamente, desde 1970) sabe que o velho Allen não está mais preocupado em agradar crítica ou público. Seus filmes, e esse incluso, são rituais de idiossincrasias para iniciados, que entendem suas referências e deliram com suas tiradas sarcásticas, sua acidez, seu cinismo cada vez mais afiado. Aí fica a dúvida: com o sucesso que Meia-Noite em Paris fez, será que o grande público finalmente alcançou Woody Allen ou o mestre abaixou a guarda e decidiu agradar a audiência? Dilema resolvido: nenhuma das opções. Esse é mais um grande filme do incansável escritor/diretor.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/07/meia-noite-em-paris-midnight-in-paris.html
5 - MISSÃO:IMPOSSÍVEL - PROTOCOLO FANTASMA (Dir. Brad Bird, EUA, 2011, 127 min.)
Quem diria que o desacreditado Tom Cruise mais um diretor vindo da animação (grande animação, diga-se de passagem) lançariam um torpedo como esse quarto episódio da série Missão:Impossível, dando canseira em veteranos como Brian DePalma e John Woo? Nas mãos do diretor Brad Bird, Tom Cruise e seus comparsas (Pegg, Patton, Renner, todos perfeitos) protagonizaram as melhores e mais criativas sequências de ação vistas em muito tempo, e valorizaram o formato IMAX, perfeito para cenas antológicas como a 'escalada' do Burj Khalifa, a perseguição de carros durante uma tempestade de areia e tantas outras que fazem de M:I4 o grande filme de ação do ano, recolocando a cinessérie e a carreira de Cruise no lugar certo. E que venham mais aventuras de Ethan Hunt.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/12/missao-impossivel-protocolo-fantasma.html
4 - A PELE QUE HABITO (Dir. Pedro Almodóvar, SPA, 2011, 105 min.)
Sem enrolação: A Pele que Habito é um drama de horror absurdo, um conto sobre os extremos da obsessão e técnica e emocionalmente, provavelmente é o melhor filme que Pedro Almodóvar já fez. Alcançando maturidade narrativa e controlando os excessos de outrora, o autor soube costurar todos os seus antigos temas numa história de gênero, que nunca é previsível e nos choca com seu atordoante final. Banderas, Elena Anaya e todo o elenco estão em grande momento, materializando o delírio de Almodóvar e construindo aquele que foi, sem dúvida, o filme mais perturbador que pude testemunhar nesse ano.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/11/pele-que-habito-la-piel-que-habito-esp.html
3 - TUDO PELO PODER (Dir. George Clooney, EUA, 2011, 94 min.)
A verve política de Clooney já é velha conhecida desde seus tempos de Boa Noite e Boa Sorte, mas finalmente o ator e diretor conseguiu afiar o seu discurso liberal e realizar seu melhor filme: Tudo Pelo Poder é um thriller passado nos bastidores de uma campanha eleitoral e é um filme sobre a perda da inocência, o momento em que um idealista (interpretado pelo excelente Ryan Gosling) percebe que, para fazer parte do jogo político, é necessário deixar as luvas de pelica de lado e sujar as mãos. Nem que isso signifique a descrença completa nos valores que fizeram você se engajar um dia. Grande filme.
2 - WARRIOR (Dir. Gavin O'Connor, EUA, 2011, 132 min.)
Desfazendo o mal-entendido: Warrior não é mais uma cópia de Rocky ou um famigerado drama sobre superação cheio de lições de moral. É simplesmente o filme mais devastador do ano sobre uma família separada por aquilo que não se diz; sobre os laços desfeitos que não podem ser reatados. Ainda é o uso espetacular da metáfora da luta (no caso, o violento Mixed Martial Arts) para contar a história de dois irmãos (Tom Hardy e Joel Edgerton, em grandes atuações) e um pai renegado (o gênio Nick Nolte) que aos trancos e barrancos tentam fazer as pazes com o passado e seguir adiante, sem nunca saber de onde virá a próxima pancada. Warrior tem o desfecho mais emocionante que já vi num filme desde O Lutador, filme de Aronofsky com Mickey Rourke. Ambos os filmes retratam um ponto comum: a grande luta sempre ocorre antes e depois do ringue. É uma obra-prima sincera e sem floreios, que te atinge e fica ressoando por dias. E é o tipo de filme que nos lembra para que serve o cinema.
1 - DRIVE (Dir. Nicolas Winding Refn, USA, 95 min.)
Com Drive, o diretor Nicolas Winding Refn entra direto para o rol dos grandes visionários: aqueles que sabem pegar uma história aparentemente simples e transformá-la em algo único, graças a uma direção meticulosa, preocupada com cada cena, cada plano, cada diálogo. O resultado é uma obra-prima genuína, dessas que a cada vez que se revê novas leituras e detalhes pipocam da tela. A figura do motorista encarnado com exatidão pelo extraordinário Ryan Gosling é a releitura moderna do Taxi Driver de DeNiro. Um solitário, um psicopata com coração de ouro que vaga pelas ruas em busca de uma paixão, uma guerra para lutar.Albert Brooks, Bryan Cranston, Carey Mulligan, Ron Perlman: grandes atuações neste que é, possívelmente, o primeiro clássico de uma década. Algo como um encontro de Lost in Translation com Clube da Luta, se fossem dirigidos por Michael Mann. Mas isso é papo furado: o cinema puro que emana de Drive nos faz renovar a fé em autores preocupados em entregar a obra perfeita. Refn, parabéns: você conseguiu.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/09/drive-drive-eua-2011-94-min.html
(Ótimos filmes que ficaram de fora, mas não esquecidos: Win Win, Cedar Rapids, O Homem que Mudou o Jogo, X-Men: Primeira Classe, Hesher, Os Agentes do Destino, Super 8, Eu Sou O Amor, No Limite da Mentira, O Guarda, Um Conto Chinês, Os Muppets, Planeta dos Macacos- A Origem)
10 - SUBMARINE (Dir. Richard Ayoade, 100 min. UK, 2011)
Poucas vezes uma manjada história sobre os ritos de passagem da adolescência foi contada com tamanha segurança por um diretor estreante. Abusando de um visual delirante, texto afiado e ótimas atuações, Richard Ayoade fez o filme definitivo sobre paixão adolescente. É um filme sobre aquela época da vida em que os pais não te entendem, a garota que você ama te faz de bobo e o drama é a única saída para tanta melancolia. A gente cresce e descobre que foi tudo bobagem, mas filmes desse tipo ajudam-nos a lembrar que sim, às vezes é muito bom ser feliz em ser infeliz.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/07/submarine-submarine-uk-2011-86-min.html
9 - CONTRA O TEMPO (Dir. Duncan Jones, USA, 2011, 95 min.)
E sem dúvida a grande ficção de 2011 foi esse Contra O Tempo, um delírio de ação que envolve heroísmo, viagem no tempo e transferência de consciência(!) numa embalagem compacta, pouco mais de noventa minutos brilhantemente orquestrados pelo diretor Duncan Jones (que em 2009 já havia nos presenteado com a pérola Lunar). Lançado no começo do ano e esnobado por parte da crítica 'inteligente', é o tipo de filme que com o tempo só vai aumentando o séquito de seguidores, e entra na rara seara povoada por filmaços que marcaram época, como Robocop, Velocidade Máxima e tantos outros que provam o que nós aqui já sabíamos há tempos: Ficção científica e ação são gêneros espetaculares, basta um realizador com a boa vontade de assumir os clichês e subvertê-los, transformando um prato requentado em novidade.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/06/contra-o-tempo-source-code-eua-2011-84.html
8 - A ÁRVORE DA VIDA (Dir. Terrence Malick, EUA, 2011, 130min.)
Quem é Terence Malick? Um recluso, um meticuloso, um pretensioso, um pseudo-filósofo metido a cineasta? Desde seu lançamento em Cannes em maio passado, obra e criador foram dissecados e discutidos por crítica e público enfurecidamente: muito bocejavam dentro do cinema, enquanto outros deliravam com a habilidade narrativa de Malick, que construiu um conto de beleza estridente sobre tudo o que nos une e nos separa, física e espiritualmente. Se cinema relevante é aquele que faz você se enfurecer, chorar, brigar e se emocionar, podem dormir tranquilos: A Árvore da Vida é exatamente esse tipo de filme, uma obra construída para dialogar com o 'repertório' do espectador, que deve compartilhar seu ideário de crenças com as imagens que vão desfilando na tela. Tudo que Malick pede é que as pessoas entrem na sala de exibição sem medo, sem preconceito. O impacto do seu filme é destruidor. Grande obra.
7 - O PALHAÇO (Dir. Selton Mello, BRA, 2011, 85 min.)
E quem diria que após seu tributo à Cassavetes, Feliz Natal, Selton Mello mostraria à que realmente veio com esse drama cômico espetacular, um filme de coração, uma ode aos artesões do oficio espalhados por todo o país, pessoas anônimas que dedicam suas vidas ao próximo de maneira quase suicida e sem moralismos. A figura do palhaço em crise é a metáfora mais acertada do artista em busca do seu 'mojo', aquela faísca, a paixão não-descoberta que assombra a alma e faz enlouquecer, uma busca sem fim pela risada sincera, honesta. Algo em falta nos dias que corre, fato. Mas filmes como esse facilitam o caminho...
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/11/o-palhaco-idem-brasil-2011-88-min.html
6 - MEIA-NOITE EM PARIS (Dir. Woody Allen, EUA/SPA, 2011, 92 min.)
Ponto pacífico: Woody Allen não 'voltou', não 'ressucitou', nunca 'voltou à velha forma' ou qualquer baboseira do tipo. É claro que Meia-Noite em Paris é um filme espetacular, que traz seus velhos temas de volta à baila: nostalgia, arte, relacionamentos e neuroses diárias. Mas quem assiste seus filmes anuais (sim, é um por ano, religiosamente, desde 1970) sabe que o velho Allen não está mais preocupado em agradar crítica ou público. Seus filmes, e esse incluso, são rituais de idiossincrasias para iniciados, que entendem suas referências e deliram com suas tiradas sarcásticas, sua acidez, seu cinismo cada vez mais afiado. Aí fica a dúvida: com o sucesso que Meia-Noite em Paris fez, será que o grande público finalmente alcançou Woody Allen ou o mestre abaixou a guarda e decidiu agradar a audiência? Dilema resolvido: nenhuma das opções. Esse é mais um grande filme do incansável escritor/diretor.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/07/meia-noite-em-paris-midnight-in-paris.html
5 - MISSÃO:IMPOSSÍVEL - PROTOCOLO FANTASMA (Dir. Brad Bird, EUA, 2011, 127 min.)
Quem diria que o desacreditado Tom Cruise mais um diretor vindo da animação (grande animação, diga-se de passagem) lançariam um torpedo como esse quarto episódio da série Missão:Impossível, dando canseira em veteranos como Brian DePalma e John Woo? Nas mãos do diretor Brad Bird, Tom Cruise e seus comparsas (Pegg, Patton, Renner, todos perfeitos) protagonizaram as melhores e mais criativas sequências de ação vistas em muito tempo, e valorizaram o formato IMAX, perfeito para cenas antológicas como a 'escalada' do Burj Khalifa, a perseguição de carros durante uma tempestade de areia e tantas outras que fazem de M:I4 o grande filme de ação do ano, recolocando a cinessérie e a carreira de Cruise no lugar certo. E que venham mais aventuras de Ethan Hunt.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/12/missao-impossivel-protocolo-fantasma.html
4 - A PELE QUE HABITO (Dir. Pedro Almodóvar, SPA, 2011, 105 min.)
Sem enrolação: A Pele que Habito é um drama de horror absurdo, um conto sobre os extremos da obsessão e técnica e emocionalmente, provavelmente é o melhor filme que Pedro Almodóvar já fez. Alcançando maturidade narrativa e controlando os excessos de outrora, o autor soube costurar todos os seus antigos temas numa história de gênero, que nunca é previsível e nos choca com seu atordoante final. Banderas, Elena Anaya e todo o elenco estão em grande momento, materializando o delírio de Almodóvar e construindo aquele que foi, sem dúvida, o filme mais perturbador que pude testemunhar nesse ano.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/11/pele-que-habito-la-piel-que-habito-esp.html
3 - TUDO PELO PODER (Dir. George Clooney, EUA, 2011, 94 min.)
A verve política de Clooney já é velha conhecida desde seus tempos de Boa Noite e Boa Sorte, mas finalmente o ator e diretor conseguiu afiar o seu discurso liberal e realizar seu melhor filme: Tudo Pelo Poder é um thriller passado nos bastidores de uma campanha eleitoral e é um filme sobre a perda da inocência, o momento em que um idealista (interpretado pelo excelente Ryan Gosling) percebe que, para fazer parte do jogo político, é necessário deixar as luvas de pelica de lado e sujar as mãos. Nem que isso signifique a descrença completa nos valores que fizeram você se engajar um dia. Grande filme.
2 - WARRIOR (Dir. Gavin O'Connor, EUA, 2011, 132 min.)
Desfazendo o mal-entendido: Warrior não é mais uma cópia de Rocky ou um famigerado drama sobre superação cheio de lições de moral. É simplesmente o filme mais devastador do ano sobre uma família separada por aquilo que não se diz; sobre os laços desfeitos que não podem ser reatados. Ainda é o uso espetacular da metáfora da luta (no caso, o violento Mixed Martial Arts) para contar a história de dois irmãos (Tom Hardy e Joel Edgerton, em grandes atuações) e um pai renegado (o gênio Nick Nolte) que aos trancos e barrancos tentam fazer as pazes com o passado e seguir adiante, sem nunca saber de onde virá a próxima pancada. Warrior tem o desfecho mais emocionante que já vi num filme desde O Lutador, filme de Aronofsky com Mickey Rourke. Ambos os filmes retratam um ponto comum: a grande luta sempre ocorre antes e depois do ringue. É uma obra-prima sincera e sem floreios, que te atinge e fica ressoando por dias. E é o tipo de filme que nos lembra para que serve o cinema.
1 - DRIVE (Dir. Nicolas Winding Refn, USA, 95 min.)
Com Drive, o diretor Nicolas Winding Refn entra direto para o rol dos grandes visionários: aqueles que sabem pegar uma história aparentemente simples e transformá-la em algo único, graças a uma direção meticulosa, preocupada com cada cena, cada plano, cada diálogo. O resultado é uma obra-prima genuína, dessas que a cada vez que se revê novas leituras e detalhes pipocam da tela. A figura do motorista encarnado com exatidão pelo extraordinário Ryan Gosling é a releitura moderna do Taxi Driver de DeNiro. Um solitário, um psicopata com coração de ouro que vaga pelas ruas em busca de uma paixão, uma guerra para lutar.Albert Brooks, Bryan Cranston, Carey Mulligan, Ron Perlman: grandes atuações neste que é, possívelmente, o primeiro clássico de uma década. Algo como um encontro de Lost in Translation com Clube da Luta, se fossem dirigidos por Michael Mann. Mas isso é papo furado: o cinema puro que emana de Drive nos faz renovar a fé em autores preocupados em entregar a obra perfeita. Refn, parabéns: você conseguiu.
Link para a crítica: http://drive-insaturday.blogspot.com/2011/09/drive-drive-eua-2011-94-min.html
(Ótimos filmes que ficaram de fora, mas não esquecidos: Win Win, Cedar Rapids, O Homem que Mudou o Jogo, X-Men: Primeira Classe, Hesher, Os Agentes do Destino, Super 8, Eu Sou O Amor, No Limite da Mentira, O Guarda, Um Conto Chinês, Os Muppets, Planeta dos Macacos- A Origem)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Roubo nas Alturas (Tower Heist, EUA, 2011, 99 min.)
...e eis que quando ninguém esperava mais nada de Brett Ratner, desacreditado por sua direção fanfarrona e desleixada em fitas como X-Men 3 e Ladrão de Diamantes, e ainda enroladíssimo nos EUA por ter dado detalhes de sua vida sexual num programa de rádio e demitido da direção do próximo Oscar, o homem vem e entrega essa que é, inegavelmente, sua fita mais divertida desde o primeiro A Hora do Rush: Roubo nas Alturas (Tower Heist). Um filme derivativo sim, mas com um senso de humor acertado e um roteiro (de Ted Griffin e Jeff Nathanson que fez o Terminal e Prenda-me se Puder, ambos de Spielberg), veja só, até esperto demais para a média Ratner de qualidade. Isso quer dizer que é um bom filme? Longe disso. Mas eu vou arder no inferno se não admitir que dei boas risadas ao longo da projeção e até me surpreendi com uma ou outra reviravolta estapafúrdia, mas muito divertida do roteiro.
Conta a história de Josh Kovacs (Ben Stiller, o de sempre), gerente de uma Torre luxuosa que funciona como hotel e flat de luxo para milionários do mundo todo situada em Nova York. O dono do edifício é o magnata Arthur Shaw (vivido com gosto pelo veterano Alan Alda), que logo não demora a ser preso, acusado de sonegação de impostos e desvio de dinheiro, o que resulta na suspensão das aposentadorias e pagamentos de todos os funcionários do edifício. Kovacs (Stiller), responsável por dezenas de subordinados, se vê numa missão de responsabilidade para com os companheiros, e ajudado por um time de outsiders do sonho americano, parte para um roubo mirabolante de uma fortuna que acredita estar num cofre na cobertura onde vivia o agora encarcerado ex-patrão.
E é aí que entra Eddie Murphy, meus caros. Após uma sequência desastrosa de filmes-família que não deram em nada, Murphy se aliou a Ratner desde o início do projeto e criou o personagem Slide, um ladrão de rua pé-de-chinelo que ajuda Stiller e seus asseclas a executarem o plano. Murphy está em seu melhor momento desde 'Os Picaretas', e é um alívio vê-lo desferindo, nem que seja em doses homeopáticas, um pouco do seu humor de rua verborrágico que tanto fez sua fama nos anos 80. Sua química com Stiller funciona, e suas cenas ensinando o grupo de ladrões amadores a como se tornar um ladrão melhor são hilárias, o grande achado do filme.
O desenrolar do assalto pode até ser batido, mas duas coisas tiram Roubo nas Alturas da vala comum dos filmes made-for-tv que pululam por aí: a esperteza dos escritores em sugerir uma trama atrelada aos acontecimentos atuais no mercado financeiro dos EUA, acertando o timing em tempos de milionários corruptos e 'occupy Wall Street'; e a escolha acertadíssima do elenco de coadjuvantes, passando por Michael Peña, Gabourey Sidibe (a protagonista de Preciosa em 2010), Casey Affleck, Judd Hirsch, Téa Leoni e o eterno 'Ferris Bueller' Matthew Broderick, aqui hilário na pele de Fitzhugh, um desastrado analista financeiro que perde tudo na crise de Wall Street e decide se juntar ao grupo de ladrões. Espere ainda um certo carro vermelho, e a óbvia piscada de olho para o clássico Curtindo a Vida Adoidado.
E isso é Roubo nas Alturas: um filme despretensioso que aqui e ali alcança picos de empolgação graças ao roteiro acima da média e um bom elenco que valorizou o material. Não é bem-acabado ou genial, não mudará sua vida, mas tira você da rotina por um par de horas e diverte despretensiosamente. É uma fita simpática que merece ser vista. Afinal, em se tratando de um aluno nota C ou D como Ratner, um B- é mais do que bem-vindo...
Conta a história de Josh Kovacs (Ben Stiller, o de sempre), gerente de uma Torre luxuosa que funciona como hotel e flat de luxo para milionários do mundo todo situada em Nova York. O dono do edifício é o magnata Arthur Shaw (vivido com gosto pelo veterano Alan Alda), que logo não demora a ser preso, acusado de sonegação de impostos e desvio de dinheiro, o que resulta na suspensão das aposentadorias e pagamentos de todos os funcionários do edifício. Kovacs (Stiller), responsável por dezenas de subordinados, se vê numa missão de responsabilidade para com os companheiros, e ajudado por um time de outsiders do sonho americano, parte para um roubo mirabolante de uma fortuna que acredita estar num cofre na cobertura onde vivia o agora encarcerado ex-patrão.
E é aí que entra Eddie Murphy, meus caros. Após uma sequência desastrosa de filmes-família que não deram em nada, Murphy se aliou a Ratner desde o início do projeto e criou o personagem Slide, um ladrão de rua pé-de-chinelo que ajuda Stiller e seus asseclas a executarem o plano. Murphy está em seu melhor momento desde 'Os Picaretas', e é um alívio vê-lo desferindo, nem que seja em doses homeopáticas, um pouco do seu humor de rua verborrágico que tanto fez sua fama nos anos 80. Sua química com Stiller funciona, e suas cenas ensinando o grupo de ladrões amadores a como se tornar um ladrão melhor são hilárias, o grande achado do filme.
O desenrolar do assalto pode até ser batido, mas duas coisas tiram Roubo nas Alturas da vala comum dos filmes made-for-tv que pululam por aí: a esperteza dos escritores em sugerir uma trama atrelada aos acontecimentos atuais no mercado financeiro dos EUA, acertando o timing em tempos de milionários corruptos e 'occupy Wall Street'; e a escolha acertadíssima do elenco de coadjuvantes, passando por Michael Peña, Gabourey Sidibe (a protagonista de Preciosa em 2010), Casey Affleck, Judd Hirsch, Téa Leoni e o eterno 'Ferris Bueller' Matthew Broderick, aqui hilário na pele de Fitzhugh, um desastrado analista financeiro que perde tudo na crise de Wall Street e decide se juntar ao grupo de ladrões. Espere ainda um certo carro vermelho, e a óbvia piscada de olho para o clássico Curtindo a Vida Adoidado.
E isso é Roubo nas Alturas: um filme despretensioso que aqui e ali alcança picos de empolgação graças ao roteiro acima da média e um bom elenco que valorizou o material. Não é bem-acabado ou genial, não mudará sua vida, mas tira você da rotina por um par de horas e diverte despretensiosamente. É uma fita simpática que merece ser vista. Afinal, em se tratando de um aluno nota C ou D como Ratner, um B- é mais do que bem-vindo...
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Missão: Impossível - Protocolo Fantasma (EUA, 2011, 127 min.)
Segundo Aristóteles, catarse seria a 'purificação' experimentada pelos espectadores, durante e após uma representação dramática. Também pode ser definida como uma sala iMAX lotada numa noite de terça feira desabando em risadas e aplausos para a ressureição artística e comercial de Tom Cruise que é 'Missão: Impossível - Protocolo Fantasma', dirigido por Brad Bird, egresso da animação que conduziu os soberbos 'Ratatouille', 'Os Incríveis' e 'O Gigante de Ferro'. Vale aqui uma analogia com o futebol: se você é torcedor de verdade, apaixonado por um time, sabe que ver um jogo ao vivo no estádio é a verdadeira celebração do esporte, a celebração coletiva que leva a catarse. Da mesma forma, muito se fala hoje em dia sobre 'baixar' filmes ou mesmo esperar o lançamento em dvd ou blu-ray. Mas meus amigos, um filme desse quilate serve para separar os meninos dos homens: deve ser visto sim em iMAX ou com a melhor qualidade de som e imagem possíveis, para aí sim se desfrutar por completo da experiência do cinema de ação popular de verdade, que pretende divertir com qualidade sem maiores pretensões.
E olha que descontadas raríssimas excessões, pensei que Hollywood já havia esquecido como fazer esse tipo de filme. O próprio Cruise andava numa maré desfavorável desde o fracasso de Operação Valkíria e o desastroso Knight and Day no ano passado. É até curioso notar que o terceiro Missão Impossível de 2006, conduzido pelo criador de Lost, J.J.Abrams, apesar de ótimo filme não alcançou o resultado esperado comercialmente, o que deixou a realização deste quarto episódio sob auspícios temerosos dos fãs da franquia...com Cruise em baixa, um realizador vindouro da animação, e rumores (infundados, agora posso garantir) da substituição de Cruise por Jeremy Renner (aqui como um analista de passado obscuro que entra para a equipe de Ethan Hunt), nem o mais otimista poderia prever a perfeição que é esse filme.
Para início de conversa, os roteiristas Josh Applebaum e Andre Nemec entenderam à perfeição a essência do que é Missão:Impossível: um time de experts em diferentes áreas de espionagem que ora precisam seguir à risca um plano combinado previamente, ora devem improvisar sobre eventuais falhas em campo para cumprir a missão. É espionagem, mas é também diversão escapista, com 'gadgets' espetaculares e cenas de ação e suspense que devem fazer o espectador ficar na beira da poltrona, mesmo abraçando a inverossímelhança total...afinal, com o perdão do trocadilho, é o 'Impossível' que fazia da série e fez dos filmes algo divertido e digno de nota dentro do gênero ação. Ethan Hunt (Cruise) continua o líder da equipe, mas desta vez o grande barato é que TODOS os membros da IMF que vemos na tela ( o analista Jeremy Renner, a agente de campo interpretada pela belíssima Paula Patton de 'Deja-Vu' e o alívio cômico espetacular que é o comediante britânico Simon Pegg) são essenciais para a resolução da trama...é uma sacada muito inteligente que ao mesmo tempo em que faz Cruise suar a camisa para conquistar o público dividindo a tela com outros atores, faz com que esse seja o filme mais fiel ao conceito da série de TV de toda a franquia.
As cenas de ação são conduzidas por Bird e o diretor de segunda unidade Dan Bradley com maestria, e elas realmente impressionam no iMAX. A sequência em que Cruise, sem dublê, fica pendurado no alto do prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa, vale o ingresso e causa vertigem, devido ao nível de detalhamento que se vê na tela. É uma sequência histórica, que junto à perseguição no meio da tempestade de areia e outras grandes cenas do filme, entram direto para o rol das melhores cenas de ação da década.
Nem vale a pena revelar muito mais sobre o que acontece no filme sob pena de revelar ótimas reviravoltas que são a cereja no topo da diversão. A trama envolve um terrorista russo (Michael Nyqvist, da versão sueca de 'Os Homens que não Amavam as Mulheres') que tenta disparar ogivas nucleares e começar a Terceira Grande Guerra. É um argumento batido, mas que nas mãos dessa equipe mais que competente se transforma num épico de ação que lembra os dias de 'True Lies', 'Duro de Matar', 'Máquina Mortífera', e a própria qualidade dos episódios anteriores de 'Missão: Impossível'.
A verdade é que depois de várias temporadas dominadas por vampiros duvidosos, robôs alucinados e super-heróis de todos os tipos, já estava mais do que na hora de uma bem-vinda visita de Cruise/Ethan Hunt, provando quem ainda é o dono da bola. E revitalizando uma franquia que começou lá em 96, e parece não dar sinais de desgaste, porque o conceito ainda é muito empolgante.
Que o diga a platéia de fanáticos que lotou o Bourbon iMAX nessa noite de terça feira. Todos riram nas partes certas, se emocionaram com as reviravoltas e não desgrudaram os olhos da tela por um instante sequer. Se Bird, Cruise e cia. quiserem lançar um desses a cada Natal, do lado de cá, a gente vai até começar a acreditar em Papai Noel...o presente de 2011, ao menos, já está garantido.
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